quarta-feira, janeiro 21, 2009

Um plágio ou a metamorfose de um relato real

Por Lillian Bento

Parte 1: O encontro

Um vulto, outro vulto, outro vulto. Esta era a visão que Benedita tinha do centro da cama forrada com lençóis de cetim barato e vermelho de onde observava o vidro fosco da porta. Ela retocava o esmalte grená e ouvia no rádio baladas sertanejas enquanto aguardava que um daqueles vultos que passavam pelo corredor parasse diante da porta de sua suíte e entrasse subitamente para lhe tomar nos braços.

Um vulto, outro vulto, outro vulto. O movimento continuava enquanto Benedita passava o tempo imaginando quem seria o próximo homem a entrar ali e surpreendê-la com um buquê de rosas cor-de-rosa tal como sonhara durante toda a adolescência. Do auge de seus 36 anos, aquela mulher de estatura mediana e ancas avantajadas com a pele já maltrada pelos anos, mas carregada de maquiagem, sonhava como uma garota de 16 e aguardava a chegada do homem perfeito. Não precisava ser um príncipe, repetia para si mesma, mas alguém que a levasse para um passeio de mãos dadas em uma praça qualquer e a buscasse no trabalho.

- Alguém que me buscasse no trabalho! Suspirou. Isso sim é prova de amor, mandar flores nem tanto, mas ser esperada na saída do trabalho é o sonho de toda mulher - pensava alto.

Um vulto, outro vulto, outro vulto. Parou. A batida estridente na porta enferrujada interrompeu os pensamentos de Benedita. Ela escondeu os esmaltes, ajeitou o lençol, tirou o sutiã e se deitou sobre na cama cor de sangue com as ancas para cima, uma mini calcinha fio dental com estampa de oncinha e uma sandália dourada salto 15.

- Keila? perguntou o homem de barba cerrada, rosto marcado por expressões do tempo que vestia uma camisa de um tecido azul claro aberta até a altura do umbigo a exibir a protuberante barriga que lhe adornava a estrutura de pessoa magra. Aparentando não ter mais de 40 anos ele mantinha o olhar nos pés, como quem quisesse fugir da realidade que lhe cercava em paredes cobertas de mofo que marcava aquele reduto de luxúria da periferia da cidade.

-Olhe para mim... toque meus seios que te esperam - respondeu Benedita que se fizera a insinuante Keila com a entrada daquele estranho estranho.

-Tire a roupa

-Já estou quase sem

-Então vista mais roupas e tire-as

-Entendi, respondeu Keila, que aumentou o volume do velho rádio e embalada pela música sertaneja vestiu um pequeno vestido de cetim vermelho com zíper nas laterais e começou a se despir.

Tímido, o estranho ele olhava por cima dos óculos sem mover a cabeça que ainda mirava o chão.

Ela deitou-se na cama separando as pernas e exibindo-lhe toda sua nudez. Ele se aproximou e sentou na cama a lhe acariciar a barriga.

-Meia hora é 100. Completo é 130, disse Keila sem resposta. Ele continuou a lhe acariciar a barriga.

Em um movimento brusco, Keila o agarrou e fechou o homem entre suas pernas. Ele a empurrou com a mesma rapidez e sentou novamente na cama sem nada dizer.

-Já se passaram meia hora. Tá perdendo tempo e dinheiro, disse Keila já com um ar de irritação.

Em uma tentativa de estimular o cliente ela ajoelhou-se na cama e começou a acariciar o próprio corpo com as mãos embebidas com um óleo de amêndoa barato que estava na cabeceira da cama.

- Obrigada. Disse o homem que abriu a carteira, deixou 200 reais no lençol e saiu deixando a agora Benedita sem entender.

- Tá, quer me dar dinheiro fácil tudo bem, disse enquanto vestia a calcinha.

Ela deitou-se novamente e pegou um livro de palavras cruzadas para passar o tempo e esperar o próximo. Um vulto, outro vulto, outro vulto. Veio o próximo e três outros próximos naquele dia
que gozaram, pagaram e foram embora após dizer meia dúzia de palavras eróticas e ofensivas.

Era exatamente meia noite quando Benedita deixou a casa onde trabalhava para tomar o trem e seguir para a kit que dividia com outras três amigas que conhecera na prostituição. Na pracinha em frente à casa, que tinha fachada de boteco e um letreiro que dizia: Dose de amor, estava sentado o estranho cliente, que ainda fitava o chão e mexia os sapatos.

Ao ver Benedita ele levantou-se e a chamou pelo nome em voz alta.

-Quem lhe disse meu nome?

-Você

- Tá louco? Quando?

- Há 25 anos exatamente

Ela parou, sentiu seu corpo estremecer e com um frio na barriga se aproximou e retirou os óculos do rosto dele em um movimento suave e tímido das mãos. Pela primeira vez o homem ergueu o olhar e fitou os olhos negros de Benedita, manchados de maquiagem velha. Sem dizer nada, ele lhe acariciou o rosto e a beijou na boca. Atônita e se sentindo como uma adolescente, ela lembrou daquela figura enigmática que marcara sua adolescência e correspondeu o beijo.

- Jorge. Como me encontrou?

-Eu procurei por você. E a encontrei em uma vida muito diferente da que imaginara, mas com o mesmo brilho e vitalidade de seus 12 anos. Meu coração disparou como na época do colégio e me recusei a olhar para você.

-É estranho ver você tanto tempo depois.

-Imagino, não tenho mais a juventude de antes

-E eu caí na vida, como você pode ver
-Não me importo com isso. Também estive envolvido em uns negócios arriscados

-Que negócios?

- Bolsa de valores. Eu me tornei um jogador do mundo financeiro, me arrisco com ações e algumas mercadorias. Não vale a pena explicar.

- Porque está aqui na porta do meu trabalho?

- Estava esperando você sair

- Me esperando na porta do trabalho? - suspirou a lembrar dos sonhos pueris

-É. Queria te ver mais uma vez. Além do mais, não tenho onde passar a noite, resolvi ficar aqui debaixo desta árvore.

-Não tem pra onde ir? Pode ir pra minha casa, não é grande coisa e eu precisaria falar com as meninas que moram comigo, mas acho que tá limpo. Vamos?

-Não estou em condições de recusar, fui despejado da casa onde morava e agora preciso ajeitar minha vida. Obrigada, Benedita. - disse Jorge a lhe beijar todo o rosto.

- Onde você estava morando? Perguntou a curiosa Benedita.

- É uma longa história. Eu te conto assim que amanhecer o dia. Estava no Acre e vivi uns tempos na Bolívia. Vou te explicar tudo mais tarde, minha Ditinha. E por falar nisso Keila é um bonito nome, disse rindo.

Ele tomou as mãos de Benedita, que viu em minutos realizados dois de seus sonhos de juventude.

Parte 2: O desencontro

Ao chegar na casa de Benedita - um quarto grande dividido em três partes em um pequeno prédio de kitnets, Jorge acomodou-se ao lado de Benedita em sua pequena cama de solteiro.

- Porque não fica naquele quarto de hoje a tarde? Parece maior e mais aconchegante

- É alugado. Sete reais por hora utilizada, muito caro.

- Não quero mais que volte àquele lugar

- Mas acabamos de nos reencontrar

- Por isso mesmo, eu te reencontrei e agora é minha mulher. Quero começar uma vida nova e você esta comigo. Amanhã mesmo saio a procura de emprego e você não trabalha mais

A decisão unilateral de Jorge assustou Benedita, que apesar do medo sentiu-se feliz por ter pela primeira vez alguém que se oferecesse para cuidar dela.

-Ele pegou na minha mão e me esperou no trabalho, pensava enquanto tentava dormir.

No dia seguinte, Benedita não voltou ao Dose de Amor e nem ligou para dizer que não pretendia ir mais. De manhã, Jorge saiu como prometido e deixou um bilhete para Benedita:

“Keilinha minha, volto mais tarde com as novidades. Mil beijos,minha Benedita.”

Sentindo-se leve e feliz, keila passou o dia a limpar a kitnet como há tempos não fazia. Foi até a lojinha da esquina e comprou três arranjos de flores de plástico, frutas, e aromatizante para o ar. Limpou a casa toda para esperar seu novo e súbito amor. Preparou-lhe um jantar com o que de melhor sabia fazer na cozinha: lasanha.

Vestida em seu melhor vestido - feito de organza cor-de-rosa e com uma rosa da mesma cor nos cabelos negros, Benedita esperou. Da janela via passar os vultos e nenhum deles parava. Um vulto, outro vulto, outro vulto. Até que adormeceu sentada na mesa. Acordou com a estridente voz de Neusa, sua companheira de quarto.

- Que mesa linda, Bené! Preparou pra gente? Disse enquanto tirava o salto agulha e se despia.

- Preparei para minha imaginação - respondeu lacônica.

Vestiu-se com uma calça de couro, uma blusa vermelha e voltou ao Dose de amor. Na porta o dono a esperava:

-Porque faltou ontem sem avisar?

-Tive dor de estômago.

- Não vacile ou vai perder o ponto

-Eu sei.

Entrou na suíte, bateu a porta. Ligou o rádio. Deitou-se na cama e olhou para a porta. Um vulto, outro vulto, outro vulto.

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