domingo, abril 01, 2018

Das portas abertas

São 35 anos, alguns amores e muitas paixões. 
Impulsiva, nunca achei difícil abrir portas 
Quando meu coração se converte em Corisco,
difícil é mantê-las fechadas
Tamanha é a força dos ventos que me movem
que não há porta que fique fechada!

Mas depois, quando vem a calmaria
E chega a hora da marcha estradeira
Das inevitáveis despedidas
Sigo, deixando as portas abertas
Como é difícil fechar portas.
Umas mais que as outras. 
Romper ciclos
Seguir sem olhar para trás 

Vez ou outra quando o presente esfria
O coração amorna
É bom saber que há para onde correr 
Onde estão encontros que trazem novamente 
movimentos e intensidades 
É bom e (tão egoísta) ter possibilidades 
Um caminho, um vício

Um vício que agora, 
No findar do meu quinto setênio,
Me traz incômodos
E revela importantes contradições 
É difícil perceber os ventos que arrebatam meu coração 
quando tantas portas estão abertas

E, apesar de não saber se as quero fechadas
Tomo uma distância para observar 
Sem julgar 
É desafio
Mas agora preciso desfrutar do silêncio 
para potencializar a escuta 
Recolher meus fragmentos 
Me reconhecer inteira. 

Lillian
 


segunda-feira, setembro 25, 2017

Gozo sonhado é gozo


Tem sido recorrente sonhar contigo. Talvez sonhe tanto, por ter assumido para mim mesma que amar nem sempre é estar junto e que a saudade pode ser boa conselheira. Sonhando eu expurgo os apegos e dou passagem para o que há de vir. Acordo sorrindo porque (quase sempre) são sonhos bons. Refletem a quietude e o prazer que sinto em sua companhia.

Raras vezes são ruins, mas quando isso acontece e acordo com vontade de jamais ter te conhecido, logo lembro que a vida é linda justamente pelas costuras tortas que faz e percebo que desejar fugir seria bobagem. Se, ao te conhecer, permiti que fizesse morada nos recôncavos mais profundos do meu coração há nisso tal singularidade e beleza que já não importam os caminhos que virão.

Sei que onde residem o amor, a quietude e o prazer também estão guardadas a dor, a angústia e as incertezas. É ali nos ocos mais profundos da alma que ficam todos esses sentimentos intensos. Lembro que quando mais jovem me deixava derrubar pelas tempestades a cada vez que remexia nessas zonas profundas. Vibrava de euforia na mesma intensidade em que me deixava abater por intensas tristezas.

A saída quase sempre era a fuga. Muitas vezes ainda é, não posso negar, o que mudou é que hoje já não corro da dor, da frustração e das incertezas. Tal qual o amor ou o gozo, as experimento em profundidade. É melhor controlar os raios e os ventos com a espada de fogo de Iansã que negar as tempestades. Sentindo os ventos revoltos é que comecei a experimentar o peso e a leveza dos amores não vividos.E você seguirá comigo.

Se há dor na ausência, há gozo na saudade. Nos sonhos, nas recordações. Nem todo amor é para ser vivido, nem todo gozo é para ser molhado. Te guardo na lembrança do abraço não dado, do beijo não trocado, dos lençóis não partilhados. Te guardo na calmaria de te lembrar em algumas de minhas canções favoritas, na voz da Maria Bethania, ou na poesia de Fernando Pessoa, que na voz de Ricardo Reis entoa:

"Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos, se quiséssemos trocar beijos e abraços e carícias, mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro ouvindo correr o rio e vendo-o". Seguirás comigo ainda que na distância. Seguirás nas profundezas que habitas e nem sabes. E é novamente nas palavras de Fernando Pessoa que te digo:

Gozo sonhado é gozo, ainda que em sonho.
Nós o que nos supomos nos fazemos,
Se com atenta mente
Resistirmos em crê-lo.
Não, pois, meu modo de pensar nas coisas,
Nos seres e no fado me consumo.
Para mim crio tanto
Quanto para mim crio.
Fora de mim, alheio ao em que penso,
O Fado cumpre-se. Porém eu me cumpro
Segundo o âmbito breve
Do que de meu me é dado.


(Ricardo Reis, 30.01.1927) 

Lillian. 

Nas ruas de Goiânia. Foto: Lillian Bento                                                             

sábado, março 04, 2017

Que sangre, escorra até estancar

É preciso olhar bem para a ferida
Deixar que o sangue escoe
Sentir a dor que pulsa
A lágrima que quente corre
Estar ali ainda quando o sangue secar
Quando a lágrima cessar
Sentir a dor e ver cicatrizar
Levantar e seguir por outro caminho
Estar pronta quando voltar o riso
Estar em paz para o outro dia
Os novos momentos
Os novos pulsar
Reconhecer o prazer de outros ventos
que tocam a pele
Das novas águas que correm no rio
Das novas carícias
Dos novos abraços
De outros beijos 


(Eu aqui... divagando porque gosto de vagar)

segunda-feira, outubro 31, 2016

Origami

Pouso, em vão, a caneta no papel
Há seis meses as letras borradas
Há seis meses, recolhidos no escuro,
meus olhos se aquietam
pouco enxergam, muito veem

Imersos em descobertas interiores,
meus pensamentos imprecisos
desejam ganhar o papel
Em vão.

Seguem aprisionados e na escuridão
buscam entender as novas descobertas
Muito vejo, pouco digo
Estranha sensação!

Lá fora o mundo parece igual
Ouço  o tintilar dos copos
O burburinho das ruas
O acariciar dos corpos
Aqui dentro...

Bem,
As palavras seguem insuficientes
Do papel faço um origami




sábado, julho 02, 2016

(re)conhecendo-me

Houve um 'quando' em que de olhos fechados eu não via
Houve um 'onde' em que de ouvidos tapados eu me escondia
Agora, recolhida na escuridão e no silêncio, vejo e ouço com inigualável clareza
Daqui desse quando e onde tão íntimos me conheço e reconheço
com apreço e uma incipiente serenidade
Cada dia e cada noite são mais meus
Cada cor e cada som são mais sentidos
O corpo se abre a novas experiências
Porque a experiência reconhece meus novos 'eus'.








terça-feira, maio 03, 2016

Falhou. Estou cansada.

Falta plural na fala
Falta plural na escrita
Faltam debates plurais.
Em vez de somar, o plural irrita
E nessa falta de ajuste entre plurais e singulares
'As conversa' são dispersas e os diálogos suprimidos
O que sobra mesmo é só desânimo...
... esse lugar de onde agora escrevo.

terça-feira, outubro 06, 2015

O que de ti ficou em mim

Talvez tenha sido com você que aprendi que amar é deixar partir. Que amor é liberdade! Ou, talvez (para ser mais honesta) eu nem tenha aprendido ainda, mas por certo foi com você que comecei a aprender. Sim, eu ardi de paixão por você! Acredito que logo na primeira conversa - eu tão menina e você falando de Foucault. A festa havia acabado e você me perguntou porque eu usava uma cruz invertida no pescoço,  comentou sobre minha roupa preta e disse ter gostado da minha meia arrastão. A madrugada  passou inteira em segundos e foi a primeira de tantas outras regadas a corpos entrelaçados, gozo, conversas intermináveis sobre Caetano, Doces Bárbaros, Filosofia, teatro e tantos outros assuntos que nos conectavam.  Me encantei por ti e esse encantamento durou bem mais que mil dias.

A verdade é que seus cabelos longos daquele tempo, os dedos magros e esguios como seu corpo, o olhar profundo e o sorriso frouxo  eram a moldura perfeita para alguém tão plural, encantador e doce.  Seguimos juntos e separados por semanas, meses e anos. Eram encontros e desencontros e um ardente desejo que me unia a você.  Sempre houve magia, sempre houve tesão, sempre houve querer e palpitação, mas nunca alimentamos  uma dessas paixões que preocupam, que desejam controlar o outro e que, como diria Fernando Pessoa, 'dão movimento demais aos olhos'. Nossos encontros sempre foram esporádicos, mas intensos. Em cada um deles, sentia o corpo em brasas e me enrolava em seus braços, mãos, pernas e cabelos.  Tudo era fluido. Você vinha e ia sem nunca permanecer. Essa falta de rotina me seduzia. Nunca houve espera, algumas vezes nasceram expectativas e ciúmes, mas nada me corroía a não ser o desejo que surgia quando meus olhos encontravam, entre tantos outros, seus olhos atentos e seu sorriso de canto de boca.

Era incontrolável. Um desejo imenso de engolir seu corpo e consumir suas energias. Seguimos assim, por tantos anos e muitos encontros regados a saliva, sêmen e suor. Até que um silêncio maior se estabeleceu e voltamos a nos reencontrar surpreendentemente sem beijos, nem gozo. Conversamos timidamente, eu disse tchau e fui embora. Levei comigo a dúvida: seria uma pausa ou o fim de um ciclo, o fim  do que teria sido nosso (in)constante setênio.  Não sei. Ainda não sei. Só sei que contra os ciclos da vida não é possível lutar e agora seguimos separados. Não trocamos mais olhares ardentes ou passamos madrugadas falando sobre Caetano.  Sei apenas que segues comigo, afinal deixaste muito de ti em mim. Hoje sou outra, mas  tenho uma certeza: eu te amei e ainda te amo,  como amei e amo outros de meus grandes amores: tranquilamente...

"(...)  pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
                   Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
                   Pagãos inocentes da decadência."

(Trecho do poema  'Vem Sentar-te Comigo Lídia' de Ricardo Reis/ FP)

terça-feira, setembro 08, 2015

Cheia de mim

Estou cheia
Cheia de euforia
Cheia de agonia
Cheia de tudo
... e de nada

Cheia de falar
Cheia de ouvir
Cheia de chorar
...e de sorrir

Estou derramando ...
me perdendo em meus próprios fluídos,
escapando de mim entre meus dedos...

Preciso entrar,
me aquietar aqui dentro.
Dar vazão aos excessos
Reencontrar meus vazios
Sossegar


... dos pensamentos de uma noite de chuva, de transbordamentos e angústias

Lillian
Araraquara, setembro de 2015







domingo, dezembro 07, 2014

Sobre o outro ou sobre redescobrir caminhos

Tão importante, quanto dolorido é viver a alteridade.
Respeitar o outro e compreender quando o querer do outro te incomoda
Quando o não querer do outro te confronta e ainda assim seguir e respeitar
Saber sentir o amargo da frustração e mudar a direção da caminhada
Sentir esse amargo e jogar fora a saliva para, em seguida, redescobrir os gostos que te dão prazer
Reconfigurar!
Reabrir todos os sentidos para o novo... de novo!
E, depois do sabor das lágrimas, sentir o prazer de sorrir outra vez
Um sorriso pleno, entregue e cheio de paixão por viver
Porque já passou o tempo da extrema racionalidade
É tempo de sentir plenamente, de pulsar, de ferver o sangue,
Saborear lentamente, inclusive a dor de interromper caminhos e a delícia de redescobrir os novos!




domingo, outubro 05, 2014

Do olfato, essa memória da pele.

Suspirei...
Uma memória
Um cheiro e essa sensação...
O olfato, a memória da pele
Esse prolongamento do tato
Aliado do prazer
Um suspiro
Um sorriso
De um momento que não dura, 
mas que segue na memória
guardado nesse cheiro de lua,
De rua, de álcool, de sangue e de suor
A sensação que valeu ter sentido
o efêmero e eterno tempo de ter um sorriso nos lábios.

Lillian B.