sábado, março 04, 2017

Que sangre, escorra até estancar

É preciso olhar bem para a ferida
Deixar que o sangue escoe
Sentir a dor que pulsa
A lágrima que quente corre
Estar ali ainda quando o sangue secar
Quando a lágrima cessar
Sentir a dor e ver cicatrizar
Levantar e seguir por outro caminho
Estar pronta quando voltar o riso
Estar em paz para o outro dia
Os novos momentos
Os novos pulsar
Reconhecer o prazer de outros ventos
que tocam a pele
Das novas águas que correm no rio
Das novas carícias
Dos novos abraços
De outros beijos 


(Eu aqui... divagando porque gosto de vagar)

segunda-feira, outubro 31, 2016

Origami

Pouso, em vão, a caneta no papel
Há seis meses as letras borradas
Há seis meses, recolhidos no escuro,
meus olhos se aquietam
pouco enxergam, muito veem

Imersos em descobertas interiores,
meus pensamentos imprecisos
desejam ganhar o papel
Em vão.

Seguem aprisionados e na escuridão
buscam entender as novas descobertas
Muito vejo, pouco digo
Estranha sensação!

Lá fora o mundo parece igual
Ouço  o tintilar dos copos
O burburinho das ruas
O acariciar dos corpos
Aqui dentro...

Bem,
As palavras seguem insuficientes
Do papel faço um origami




sábado, julho 02, 2016

(re)conhecendo-me

Houve um 'quando' em que de olhos fechados eu não via
Houve um 'onde' em que de ouvidos tapados eu me escondia
Agora, recolhida na escuridão e no silêncio, vejo e ouço com inigualável clareza
Daqui desse quando e onde tão íntimos me conheço e reconheço
com apreço e uma incipiente serenidade
Cada dia e cada noite são mais meus
Cada cor e cada som são mais sentidos
O corpo se abre a novas experiências
Porque a experiência reconhece meus novos 'eus'.








terça-feira, maio 03, 2016

Falhou. Estou cansada.

Falta plural na fala
Falta plural na escrita
Faltam debates plurais.
Em vez de somar, o plural irrita
E nessa falta de ajuste entre plurais e singulares
'As conversa' são dispersas e os diálogos suprimidos
O que sobra mesmo é só desânimo...
... esse lugar de onde agora escrevo.

terça-feira, outubro 06, 2015

O que de ti ficou em mim

Talvez tenha sido com você que aprendi que amar é deixar partir. Que amor é liberdade! Ou, talvez (para ser mais honesta) eu nem tenha aprendido ainda, mas por certo foi com você que comecei a aprender. Sim, eu ardi de paixão por você! Acredito que logo na primeira conversa - eu tão menina e você falando de Foucault. A festa havia acabado e você me perguntou porque eu usava uma cruz invertida no pescoço,  comentou sobre minha roupa preta e disse ter gostado da minha meia arrastão. A madrugada  passou inteira em segundos e foi a primeira de tantas outras regadas a corpos entrelaçados, gozo, conversas intermináveis sobre Caetano, Doces Bárbaros, Filosofia, teatro e tantos outros assuntos que nos conectavam.  Me encantei por ti e esse encantamento durou bem mais que mil dias.

A verdade é que seus cabelos longos daquele tempo, os dedos magros e esguios como seu corpo, o olhar profundo e o sorriso frouxo  eram a moldura perfeita para alguém tão plural, encantador e doce.  Seguimos juntos e separados por semanas, meses e anos. Eram encontros e desencontros e um ardente desejo que me unia a você.  Sempre houve magia, sempre houve tesão, sempre houve querer e palpitação, mas nunca alimentamos  uma dessas paixões que preocupam, que desejam controlar o outro e que, como diria Fernando Pessoa, 'dão movimento demais aos olhos'. Nossos encontros sempre foram esporádicos, mas intensos. Em cada um deles, sentia o corpo em brasas e me enrolava em seus braços, mãos, pernas e cabelos.  Tudo era fluido. Você vinha e ia sem nunca permanecer. Essa falta de rotina me seduzia. Nunca houve espera, algumas vezes nasceram expectativas e ciúmes, mas nada me corroía a não ser o desejo que surgia quando meus olhos encontravam, entre tantos outros, seus olhos atentos e seu sorriso de canto de boca.

Era incontrolável. Um desejo imenso de engolir seu corpo e consumir suas energias. Seguimos assim, por tantos anos e muitos encontros regados a saliva, sêmen e suor. Até que um silêncio maior se estabeleceu e voltamos a nos reencontrar surpreendentemente sem beijos, nem gozo. Conversamos timidamente, eu disse tchau e fui embora. Levei comigo a dúvida: seria uma pausa ou o fim de um ciclo, o fim  do que teria sido nosso (in)constante setênio.  Não sei. Ainda não sei. Só sei que contra os ciclos da vida não é possível lutar e agora seguimos separados. Não trocamos mais olhares ardentes ou passamos madrugadas falando sobre Caetano.  Sei apenas que segues comigo, afinal deixaste muito de ti em mim. Hoje sou outra, mas  tenho uma certeza: eu te amei e ainda te amo,  como amei e amo outros de meus grandes amores: tranquilamente...

"(...)  pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
                   Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
                   Pagãos inocentes da decadência."

(Trecho do poema  'Vem Sentar-te Comigo Lídia' de Ricardo Reis/ FP)

terça-feira, setembro 08, 2015

Cheia de mim

Estou cheia
Cheia de euforia
Cheia de agonia
Cheia de tudo
... e de nada

Cheia de falar
Cheia de ouvir
Cheia de chorar
...e de sorrir

Estou derramando ...
me perdendo em meus próprios fluídos,
escapando de mim entre meus dedos...

Preciso entrar,
me aquietar aqui dentro.
Dar vazão aos excessos
Reencontrar meus vazios
Sossegar


... dos pensamentos de uma noite de chuva, de transbordamentos e angústias

Lillian
Araraquara, setembro de 2015







domingo, dezembro 07, 2014

Sobre o outro ou sobre redescobrir caminhos

Tão importante, quanto dolorido é viver a alteridade.
Respeitar o outro e compreender quando o querer do outro te incomoda
Quando o não querer do outro te confronta e ainda assim seguir e respeitar
Saber sentir o amargo da frustração e mudar a direção da caminhada
Sentir esse amargo e jogar fora a saliva para, em seguida, redescobrir os gostos que te dão prazer
Reconfigurar!
Reabrir todos os sentidos para o novo... de novo!
E, depois do sabor das lágrimas, sentir o prazer de sorrir outra vez
Um sorriso pleno, entregue e cheio de paixão por viver
Porque já passou o tempo da extrema racionalidade
É tempo de sentir plenamente, de pulsar, de ferver o sangue,
Saborear lentamente, inclusive a dor de interromper caminhos e a delícia de redescobrir os novos!




domingo, outubro 05, 2014

Do olfato, essa memória da pele.

Suspirei...
Uma memória
Um cheiro e essa sensação...
O olfato, a memória da pele
Esse prolongamento do tato
Aliado do prazer
Um suspiro
Um sorriso
De um momento que não dura, 
mas que segue na memória
guardado nesse cheiro de lua,
De rua, de álcool, de sangue e de suor
A sensação que valeu ter sentido
o efêmero e eterno tempo de ter um sorriso nos lábios.

Lillian B.

quarta-feira, julho 02, 2014

Eu, a troca-letras, por Marina Mercante!



Eu, troca-letras, um texto que me emocionou muito e que publico aqui para guardar como está guardado em meu coração. Escrito por minha amiga mais que amada, Marina Mercante, em sua pós-graduação em Jornalismo Literário, me descreves por inteira até hoje! Te amo, Ma! Obrigada sempre! 

Brasília – 2º bim – Marina Mercante/ Outubro de 2006


A troca-letras

Na estante, um CD de músicas para ninar ao lado de uma coletânea do Raul Seixas. Em posição de destaque, os discos do Paulinho Moska, mostrando que eles são tocados com freqüência. No mesmo ambiente, uma fila de livros sobre comunicação social, política, redação. Os sinais visíveis de que naquele quarto dorme uma mulher adulta são poucos. A estante de livros e discos é o principal. Além dela, só mesmo abrindo as gavetas e as portas do guarda-roupa.

No mais, objetos infantis predominam. Brinquedos espalhados pelo chão, um peixe de pelúcia azul e amarelo em cima da cama e uma toalha da Cinderela estendida no arame do berço. Na parede do quarto, há a pintura de uma menina de cabelos curtos e dourados em um jardim. Pacientemente, ela assopra uma flor branca, sentada perto de uma árvore com flores de várias tonalidades. O quadro está logo acima de uma cômoda clara com maçanetas em forma de estrelas e luas, sobre a qual estão dispostos nove porta-retratos, todos eles com fotografias que registram momentos dos quase quatro anos de vida da pequena Maria, filha da protagonista desta história, Líllian. Até mesmo o nome completo da personagem remete ao universo infantil, das histórias em quadrinhos da Turma da Mônica. Líllian Bento. Sobrenome que dá margem a brincadeiras do tipo: você é primo do Chico Bento ou o quê?
O dia-a-dia da jovem jornalista é como o próprio quarto em pleno domingo à noite: bagunçado, mas colorido. Ela sabe fazer render as 24 horas de cada dia, para que tenha tempo para fazer tudo o que precisa: cuidar da Maria, ser jornalista e aproveitar os 20 e poucos anos de vida. Mais exatamente, 23, completados em março passado.

A gravidez precoce aconteceu ainda na faculdade, quando Líllian estava no 2º ano de comunicação social na Universidade Federal de Goiás (UFG) e começou a namorar um colega. O namoro começou no dia do meu aniversário, logo após uma festinha em um restaurante de Goiânia. E foi no dia do aniversário da Líllian, em outro restaurante da cidade, que fui a primeira pessoa a saber que ela estava grávida. Maria nasceu em novembro de 2002.

Encontros e Desencontros

Em julho, eu estava empolgada porque passaria um final de semana completo em Goiânia. Liguei para Líllian dias antes, combinei tudo e fizemos planos. No dia anterior à minha viagem, no entanto, recebi um telefonema com DDD 62. Era ela, dizendo que estava inscrita em um curso de capacitação para jornalistas com o tema Cobertura das Eleições e que viria para a Capital Federal passar sexta e sábado! Como eu precisava ir a Goiânia por conta de um casamento, o resultado foi uma troca de cidades. Ela se hospedou no meu apartamento e ficou sozinha por um dia (minha irmã, que mora comigo, também viajou).

Por um instante, fiquei chateada com o desencontro, mas analisando a situação percebi como aquilo tudo tinha a cara da Líllian. Quantas vezes combinamos alguma coisa e ela desmarcou na última hora, sempre com um forte motivo. “Não tenho culpa, o jornal que me escalou”. Acabei achando graça. Passar um final de semana juntas despendia todo um planejamento estratégico, por causa da nossa profissão, que brinca com o tempo. E lá estava ela, sozinha no meu apartamento, cuidando do meu peixe beta, que precisa ser alimentado diariamente. Quando ela voltou a Goiânia, teve tempo ainda de me contar que havia batizado o peixe de “Jhonny” e que tinha criado um vínculo emocional com o bichinho de estimação. “Que dó deixá-lo sozinho”.

Demonstrações de carinho como essa são novidades para Líllian e ela admite isso. Quando era mais nova, foi criticada por ter dificuldades em abraçar, beijar e dizer “eu te amo” para parentes, amigos e namorados. Com o nascimento da filha, essa distância entre sentir e demonstrar ficou menor. Mas nada em exagero. Líllian tem mais afinidade com as palavras e escrever é o melhor jeito que ela encontra para usá-las bem.

“Saí do jornal por volta de 22 horas. Em minutos estava na companhia confortante da pequena Maria. Ao me ver machucada ela virou-se de lado e chorou. ‘Fiquei triste porque você machucou’, disse entre lágrimas sentidas e o abraço mais gostoso que há no mundo. Ouvi tudo como se escutasse música clássica. A voz mais linda me contava os feitos mais interessantes do mundo. Fomos dormir. Depois de todo o stress de ter sido atropelada, fechei os olhos. Minutos depois os abri com a certeza de que veria a pequena já adormecida. Mas para minha surpresa, vi que os pequenos olhos me observavam. Por alguns minutos ela vigiou meu sono e ao me ver abriu um lindo e doce sorriso. E com magia plena me abraçou e encheu meu rosto de beijos. Os melhores do mundo. Naquele instante pensei: pode me faltar tudo, se sobrar esse sorriso meu mundo está completo. Não há atropelamento que me tire essa alegria e que abale esse amor”.

O trecho acima faz parte de um texto que está no blog da mãe da Maria. É no diário eletrônico também que ela desabafa sobre os anseios, as frustrações da vida profissional, embalada pelas experiências na cobertura diária de política para um jornal de grande circulação em Goiás.

 “O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente” Fernando Pessoa

Fã declarada do enigmático poeta e escritor português responsável pelos versos acima, Líllian não consegue fingir. Nem mesmo o registro de atriz profissional que ela tem desde a época de escola facilita qualquer tipo de atuação quando está lidando com a vida real. A autenticidade sempre prevalece. Se está nervosa, deixa transparecer de forma bem clara. Se algo a incomoda, não hesita em dizer. Se fica alegre, exala euforia. Pode até evitar as lágrimas, mas demonstra que por dentro está fervendo. Em geral, as frases são ditas por Líllian antes que ela conclua o pensamento.

Troca-letras

Há, entre a tribo de jornalistas brasileiros, uma forma carinhosa – ou seria irônica – de apelidar esses profissionais: “troca-letras”. A denominação se deve ao uso contínuo da língua portuguesa, ferramenta de trabalho para qualquer um que exerce a profissão, independente do veículo. A Líllian faz isso literalmente. Mas em vez de letras, ela troca as palavras. Tem uma facilidade para esquecer as coisas (para não dizer dificuldade em lembrar) e troca os vocábulos com freqüência, deixando o interlocutor da conversa bastante confuso. Coisas do tipo: “espera que eu vou trocar a Maria da fralda" ou "corta o telefone enquanto eu atendo a pizza". Diversão garantida.

Na semana em que eu preparava este perfil, tive o mais recente exemplo desse jeito “desmemoriado” de ser. No início da tarde de uma segunda-feira, ela deixou a filha na escola e foi em direção ao ponto de ônibus. Foi atropelada por um carro enquanto atravessava a faixa de pedestres, com o semáforo indicando a luz vermelha. Por sorte, sofreu apenas alguns ferimentos externos e pôde trabalhar no mesmo dia. À noite, quando ela me ligou para contar o que tinha acontecido, soltou a máxima: “Eu atravessei o ônibus e peguei a rua”. Na seqüência, soltou gargalhadas. O que ela queria mesmo dizer era que havia atravessado a via pública e tomado o coletivo, que a levaria ao jornal onde trabalha. Simples.

Sempre imaginei como seria a elaboração de uma matéria jornalística pela minha amiga “troca-letras”. Cheguei a perguntar-lhe se trocava muito as palavras enquanto fazia as entrevistas. Ela me respondeu que realmente fazia algumas confusões ao conversar com os entrevistados, mas que, ao final do texto, tudo se resolvia.

quarta-feira, maio 21, 2014

Meu egoísmo me faz uma pessoa melhor...


Cresci levando broncas dos patrulheiros anti-egoísmo. Na infância: "Não seja egoísta, menina! Tem que aprender a dividir". Na adolescência: "Como você tem coragem de terminar um namoro logo após receber tantas flores, que egoísta!" Na fase adulta:  blah blah blah... a mesma coisa! Cheguei a pensar que eu realmente não devia ser uma boa menina, mas olhei em volta e entendi... meu egoísmo me salvou! Sou hoje uma pessoa melhor graças a ele. 

Sou egoísta o suficiente para ficar apavorada quando alguém tenta me dizer o que fazer, ou tenta forçar alguma situação! E isso sempre aconteceu! Isso sempre me enlouqueceu! E essa aversão a imposições me levou a buscar jamais repetir esse comportamento com os outros. Se eu preciso forçar qualquer coisa, sempre penso que é melhor sair daquela situação a ter que obrigar ou tentar impor algo a alguém. E por puro egoísmo: eu não faço contigo para que não faça comigo! 

De outro ponto de vista: te dou liberdade para que me a minha cresça. Talvez eu tenha transformado egoísmo em liberdade, embora continue mais egoísta que livre. Ainda assim, penso que  é melhor que fingir que não sou egoísta ou sufocar meu egoísmo, transformando água em vinho barato (como querem as religiões)! 

 Como disse Clarice: "Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."