segunda-feira, abril 28, 2008

Reflexos sem Reflexões (uma tentativa de escrever contos)

Rodoviária lotada. No guichê a fila formava um W, que ultrapassava os limites das faixas amarelas pintadas no chão – tentativa vã de organizar a impaciência das pessoas. Exatamente no meio da fila estava Lídia. Arrastando uma enorme mala azul, uma bolsa de lona verde transpassada no corpo, jaqueta dependurada no braço, jornais e papéis amassados na mão esquerda. Entediada, pensava no final de semana de trabalho que a aguardava em Brasília. Mesmo impaciente, resolveu aproveitar os intermináveis minutos de espera para pensar sobre os últimos tropeços emocionais que passara.

Há um mês, a desorganizada professora atolava a vida em trabalho. Recorria ao ganha pão como válvula de escape para esquivar-se da vida pessoal que não ia lá essas coisas. Lembrou que adotava a estratégia nos últimos três anos, sem férias. Pensava na sucessão de passos errados, amizades superficiais, intrigas e desentendimentos que vivera no período.

Tentava, em um difícil exercício mental, pinçar no pensamento os relacionamentos sinceros e as amizades verdadeiras que conseguira construir até ali. Fez um balanço: saldo negativo. Dali a uma semana faria 25 anos. “Um quarto de século e o que eu fiz?” Tudo parecia mesmo sem solução.

- O senhor não pode embarcar com um bilhete usado! A voz aguda da atendente espetou os pensamentos de Lídia, que foi jogada para fora de seu íntimo direto para um bate boca de rodoviária. À sua frente um senhor que aparentava ter entre 70 e 90 anos insistia em viajar com um papelzinho amassado na mão. Queria entregar o papel e saber o número da poltrona em que sentaria.

-Eu tenho passagem e quero viajar – dizia de cabeça baixa, como se as pessoas só existissem do pescoço até os pés. A voz, também baixa, era interrompida por gritos e um tique nervoso que o obrigava a virar bruscamente a cabeça de dez em dez segundos.
A situação incomodava Lídia, que começou a olhar para trás na tentativa de encontrar em alguém a iniciativa que resolveria tudo.

Atrás uma garota de cabelos vermelhos - devia ter uns 20 anos, calça desbotada e uma mini-blusa verde musgo - parecia ignorar a situação enquanto mastigava um “insuportável” chiclete. Depois, uma senhora gorda e grisalha completava palavras cruzadas sentada em uma mala, enquanto a garotinha que a acompanhava (sete anos talvez), vestida com a fantasia do grupo mexicano adolescente Rebeldes tentava disfarçar enquanto extraia bolinhas de meleca do nariz com o indicador e jogava na garota do chiclete.

- Deviam prender quem compra esse tipo de roupa para criança – murmurou Lídia.

Na frente o senhor ainda insistia em trocar o bilhete e discutia com os atendentes nos breves intervalos da virada de cabeça compulsiva.

- Quanto é a passagem? – perguntou Lídia irritada com a inércia das pessoas.
- O que senhora? – devolveu a funcionária, dona da voz estridente.
-Quanto é para esse senhor viajar? - Insistiu
- 25 reais
- Toma. - Tirou cinco notas de cinco amassadas da bolsa de lona.

Em um gesto automático, a funcionária imprimiu o bilhete e entregou ao senhor, que sem perceber a iniciativa de Lídia, devolveu o velho papel amassado e pegou apressadamente a passagem nova.

- Finalmente a sirigaita entendeu. Não é possível... – seguiu resmungando baixinho.
- Esse homem devia ter passe livre – comentou a, antes inerte, garota do chiclete.
-É, deveria. – rebateu Lídia sem olhar para trás.
Com passos rápidos, a professora seguiu, tentando equilibrar a grande mala, os papéis e a pesada bolsa de lona.

Entrou no ônibus. Da poltrona 20 (exatamente no meio do carro) esticou o pescoço e tentou localizar o senhor da passagem. Não conseguiu. Acomodou a bolsa, o jornal e os papéis no assento ao lado, que estava vazio. Fechou os olhos.

-Aquele senhor nunca saberá que eu o ajudei a viajar. – Começou a pensar sobre a “força do acaso”, que até então só pregara peças na jovem professora. Lembrou dos desarranjos de sua vida emocional. Os desencontros, as decepções...

Desejou estar um dia no lugar do senhor da passagem, beneficiado pela força do tal acaso “que tem a mania de agir de caso pensado”.
O ônibus estremeceu. E o barulho grave do motor abortou os pensamentos e sinalizou o início da viagem.

-Melhor planejar o roteiro das reuniões. Onde eu deixei minha agenda?

domingo, abril 27, 2008

Traição

Pensei que o tempo diminuiria a saudade. Esqueci que os dois são companheiros. Quanto mais o tempo passa, mais arrasta a saudade que aumenta e aumenta. Ela se alonga e ganha espaço em meu coração, já cansado de sentir. Traição do tempo, que sempre tive como meu aliado. (L.B)

terça-feira, abril 22, 2008

Pra você que não é romântica

Deitada em minha cama abri a agenda. De dentro das últimas páginas de janeiro, a flor que era amarela caiu marrom sobre meus seios. Apertei-a junto ao peito e senti o aroma. Descobri que o cheiro ainda estava resistente ali. (L.B)

quarta-feira, abril 16, 2008

Abraços e Ah! braços...

O Houaiss me diz que abraço é o ato de apertar entre os braços - amplexo. Demonstração de afeto ou junção de coisas ou pessoas - aderência, fusão. Para além do dicionário digo que há abraços e só braços entrelaçados - Ah, braços! Como é bom abraçar quando se deseja os braços alheios, quando se quer o peito em que se aperta o corpo. Nestes casos a aderência é certa e a fusão vai além do corpo, toca a alma, produz cheiros e lembranças.

Como é ruim abraçar por abraçar. Apertar braços, braços, braços e braços sem conseguir um Abraço! E por mais que conheçamos vários abraços, alguns serão sempre especiais. Alguns não teremos mais e se transformarão em saudades, lembranças. Alguns desses podemos até sentir com os olhos fechados. Por que um Abraço de verdade provoca sensações para além do corpo que jamais serão esquecidas. O olfato sente, o tato sente, a alma sente. É deste abraço que agora sinto falta. Fecho os olhos para sentir. Toco os meus braços para lembrar.

Abracei outras pessoas e me vi "buscando em outros braços seus abraços", mas me perdi. Não tem jeito... Buscar um abraço em outro só nos faz encontrar o vazio. Cada braço tem um abraço. (Lillian Bento)

quarta-feira, abril 09, 2008

Ainda bem!

Seguia na avenida movimentada e florida a prestar atenção no contraste dos carros apressados com as flores serenas e belas do canteiro central que dividia a via। Perfeita harmonia de cores e formas ignoradas por quem passava. Cena típica de uma tarde quente de segunda-feira. Meus pensamentos oscilavam entre atividades práticas que precisava cumprir rapidamente antes de ir para o jornal e a descrença de que todos aqueles passos não me levariam (tão cedo) para onde quero estar. Desesperança e saudade me sufocavam a alma, enquanto o suor descia pelo corpo.

Senti raiva। Dei um nó nos cabelos.

Em um dos bancos do canteiro central algumas pessoas aguardavam o tempo passar। Três senhoras, de aproximadamente 40 anos, discutiam novelas e liam matérias fúteis de uma revista de fofocas qualquer. Pensei: que horror! Aumentou a raiva. Como esse "jornalismo" de tititi tem tanto espaço no mundo, justo em um mundo com tantas coisas mais importantes para serem discutidas.

Mas em outro banco, um senhor sozinho lia atentamente um livro e a cena seduziu meu olhar। O corpo franzino e as mãos sujas de cal e cimento eram indícios de que saira há pouco do trabalho. Provavelmente um trabalho braçal. Pedreiro, talvez. Mas as mesmas mãos seguravam um livro que trazia na capa o carimbo da Biblioteca Municipal. Diminui o ritmo dos passos. Olhei disfarçadamente o conteúdo do livro. Não consegui ler o título, mas tratava de mitologia grega. Encantada - por gostar muito de mitologia grega -parei.

Ele olhou para mim. Percebeu que eu olhava com curiosidade para o livro। Eu o cumprimentei com um sorriso. Ele retribuiu. Rosto enrugado, com marcas de cal e um sorriso tímido. Nesse movimento consegui ver que lia sobre Apolo, o deus grego da beleza, da juventude e da luz - um jovem alto e bonito considerado patrono das artes. Lembrei-me da figura de Apolo e do livro que li sobre o deus aos 10 anos de idade, quando iniciava a 5ª série. Olhei de novo e percebi o contraste entre aquele homem de meia idade, que trazia no rosto marcas de uma vida sofrida, e o deus grego, símbolo da beleza e virilidade masculinas.

Olhei para as flores do canteiro e voltei a ouvir o zunido dos carros passando. Estava atrasada. Passei apressadamente sem me despedir do senhor. Olhei pra trás. Para o homem com o livro e para a rua com seus carros e flores. E pensei: ainda bem! Passou a raiva. Decidi ler de novo o livro da 5ª série. Ao menos em pensamento confortei minha saudade - minha companheira dos últimos tempos - e desejei não matar minha esperança. Espero rever aquele homem, que por um momento, foi tão bonito quanto às flores do canteiro central. (Lillian Bento)