domingo, outubro 05, 2014

Do olfato, essa memória da pele.

Suspirei...
Uma memória
Um cheiro e essa sensação...
O olfato, a memória da pele
Esse prolongamento do tato
Aliado do prazer
Um suspiro
Um sorriso
De um momento que não dura, 
mas que segue na memória
guardado nesse cheiro de lua,
De rua, de álcool, de sangue e de suor
A sensação que valeu ter sentido
o efêmero e eterno tempo de ter um sorriso nos lábios.

Lillian B.

quarta-feira, julho 02, 2014

Eu, a troca-letras, por Marina Mercante!



Eu, troca-letras, um texto que me emocionou muito e que publico aqui para guardar como está guardado em meu coração. Escrito por minha amiga mais que amada, Marina Mercante, em sua pós-graduação em Jornalismo Literário, me descreves por inteira até hoje! Te amo, Ma! Obrigada sempre! 

Brasília – 2º bim – Marina Mercante/ Outubro de 2006


A troca-letras

Na estante, um CD de músicas para ninar ao lado de uma coletânea do Raul Seixas. Em posição de destaque, os discos do Paulinho Moska, mostrando que eles são tocados com freqüência. No mesmo ambiente, uma fila de livros sobre comunicação social, política, redação. Os sinais visíveis de que naquele quarto dorme uma mulher adulta são poucos. A estante de livros e discos é o principal. Além dela, só mesmo abrindo as gavetas e as portas do guarda-roupa.

No mais, objetos infantis predominam. Brinquedos espalhados pelo chão, um peixe de pelúcia azul e amarelo em cima da cama e uma toalha da Cinderela estendida no arame do berço. Na parede do quarto, há a pintura de uma menina de cabelos curtos e dourados em um jardim. Pacientemente, ela assopra uma flor branca, sentada perto de uma árvore com flores de várias tonalidades. O quadro está logo acima de uma cômoda clara com maçanetas em forma de estrelas e luas, sobre a qual estão dispostos nove porta-retratos, todos eles com fotografias que registram momentos dos quase quatro anos de vida da pequena Maria, filha da protagonista desta história, Líllian. Até mesmo o nome completo da personagem remete ao universo infantil, das histórias em quadrinhos da Turma da Mônica. Líllian Bento. Sobrenome que dá margem a brincadeiras do tipo: você é primo do Chico Bento ou o quê?
O dia-a-dia da jovem jornalista é como o próprio quarto em pleno domingo à noite: bagunçado, mas colorido. Ela sabe fazer render as 24 horas de cada dia, para que tenha tempo para fazer tudo o que precisa: cuidar da Maria, ser jornalista e aproveitar os 20 e poucos anos de vida. Mais exatamente, 23, completados em março passado.

A gravidez precoce aconteceu ainda na faculdade, quando Líllian estava no 2º ano de comunicação social na Universidade Federal de Goiás (UFG) e começou a namorar um colega. O namoro começou no dia do meu aniversário, logo após uma festinha em um restaurante de Goiânia. E foi no dia do aniversário da Líllian, em outro restaurante da cidade, que fui a primeira pessoa a saber que ela estava grávida. Maria nasceu em novembro de 2002.

Encontros e Desencontros

Em julho, eu estava empolgada porque passaria um final de semana completo em Goiânia. Liguei para Líllian dias antes, combinei tudo e fizemos planos. No dia anterior à minha viagem, no entanto, recebi um telefonema com DDD 62. Era ela, dizendo que estava inscrita em um curso de capacitação para jornalistas com o tema Cobertura das Eleições e que viria para a Capital Federal passar sexta e sábado! Como eu precisava ir a Goiânia por conta de um casamento, o resultado foi uma troca de cidades. Ela se hospedou no meu apartamento e ficou sozinha por um dia (minha irmã, que mora comigo, também viajou).

Por um instante, fiquei chateada com o desencontro, mas analisando a situação percebi como aquilo tudo tinha a cara da Líllian. Quantas vezes combinamos alguma coisa e ela desmarcou na última hora, sempre com um forte motivo. “Não tenho culpa, o jornal que me escalou”. Acabei achando graça. Passar um final de semana juntas despendia todo um planejamento estratégico, por causa da nossa profissão, que brinca com o tempo. E lá estava ela, sozinha no meu apartamento, cuidando do meu peixe beta, que precisa ser alimentado diariamente. Quando ela voltou a Goiânia, teve tempo ainda de me contar que havia batizado o peixe de “Jhonny” e que tinha criado um vínculo emocional com o bichinho de estimação. “Que dó deixá-lo sozinho”.

Demonstrações de carinho como essa são novidades para Líllian e ela admite isso. Quando era mais nova, foi criticada por ter dificuldades em abraçar, beijar e dizer “eu te amo” para parentes, amigos e namorados. Com o nascimento da filha, essa distância entre sentir e demonstrar ficou menor. Mas nada em exagero. Líllian tem mais afinidade com as palavras e escrever é o melhor jeito que ela encontra para usá-las bem.

“Saí do jornal por volta de 22 horas. Em minutos estava na companhia confortante da pequena Maria. Ao me ver machucada ela virou-se de lado e chorou. ‘Fiquei triste porque você machucou’, disse entre lágrimas sentidas e o abraço mais gostoso que há no mundo. Ouvi tudo como se escutasse música clássica. A voz mais linda me contava os feitos mais interessantes do mundo. Fomos dormir. Depois de todo o stress de ter sido atropelada, fechei os olhos. Minutos depois os abri com a certeza de que veria a pequena já adormecida. Mas para minha surpresa, vi que os pequenos olhos me observavam. Por alguns minutos ela vigiou meu sono e ao me ver abriu um lindo e doce sorriso. E com magia plena me abraçou e encheu meu rosto de beijos. Os melhores do mundo. Naquele instante pensei: pode me faltar tudo, se sobrar esse sorriso meu mundo está completo. Não há atropelamento que me tire essa alegria e que abale esse amor”.

O trecho acima faz parte de um texto que está no blog da mãe da Maria. É no diário eletrônico também que ela desabafa sobre os anseios, as frustrações da vida profissional, embalada pelas experiências na cobertura diária de política para um jornal de grande circulação em Goiás.

 “O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente” Fernando Pessoa

Fã declarada do enigmático poeta e escritor português responsável pelos versos acima, Líllian não consegue fingir. Nem mesmo o registro de atriz profissional que ela tem desde a época de escola facilita qualquer tipo de atuação quando está lidando com a vida real. A autenticidade sempre prevalece. Se está nervosa, deixa transparecer de forma bem clara. Se algo a incomoda, não hesita em dizer. Se fica alegre, exala euforia. Pode até evitar as lágrimas, mas demonstra que por dentro está fervendo. Em geral, as frases são ditas por Líllian antes que ela conclua o pensamento.

Troca-letras

Há, entre a tribo de jornalistas brasileiros, uma forma carinhosa – ou seria irônica – de apelidar esses profissionais: “troca-letras”. A denominação se deve ao uso contínuo da língua portuguesa, ferramenta de trabalho para qualquer um que exerce a profissão, independente do veículo. A Líllian faz isso literalmente. Mas em vez de letras, ela troca as palavras. Tem uma facilidade para esquecer as coisas (para não dizer dificuldade em lembrar) e troca os vocábulos com freqüência, deixando o interlocutor da conversa bastante confuso. Coisas do tipo: “espera que eu vou trocar a Maria da fralda" ou "corta o telefone enquanto eu atendo a pizza". Diversão garantida.

Na semana em que eu preparava este perfil, tive o mais recente exemplo desse jeito “desmemoriado” de ser. No início da tarde de uma segunda-feira, ela deixou a filha na escola e foi em direção ao ponto de ônibus. Foi atropelada por um carro enquanto atravessava a faixa de pedestres, com o semáforo indicando a luz vermelha. Por sorte, sofreu apenas alguns ferimentos externos e pôde trabalhar no mesmo dia. À noite, quando ela me ligou para contar o que tinha acontecido, soltou a máxima: “Eu atravessei o ônibus e peguei a rua”. Na seqüência, soltou gargalhadas. O que ela queria mesmo dizer era que havia atravessado a via pública e tomado o coletivo, que a levaria ao jornal onde trabalha. Simples.

Sempre imaginei como seria a elaboração de uma matéria jornalística pela minha amiga “troca-letras”. Cheguei a perguntar-lhe se trocava muito as palavras enquanto fazia as entrevistas. Ela me respondeu que realmente fazia algumas confusões ao conversar com os entrevistados, mas que, ao final do texto, tudo se resolvia.

quarta-feira, maio 21, 2014

Meu egoísmo me faz uma pessoa melhor...


Cresci levando broncas dos patrulheiros anti-egoísmo. Na infância: "Não seja egoísta, menina! Tem que aprender a dividir". Na adolescência: "Como você tem coragem de terminar um namoro logo após receber tantas flores, que egoísta!" Na fase adulta:  blah blah blah... a mesma coisa! Cheguei a pensar que eu realmente não devia ser uma boa menina, mas olhei em volta e entendi... meu egoísmo me salvou! Sou hoje uma pessoa melhor graças a ele. 

Sou egoísta o suficiente para ficar apavorada quando alguém tenta me dizer o que fazer, ou tenta forçar alguma situação! E isso sempre aconteceu! Isso sempre me enlouqueceu! E essa aversão a imposições me levou a buscar jamais repetir esse comportamento com os outros. Se eu preciso forçar qualquer coisa, sempre penso que é melhor sair daquela situação a ter que obrigar ou tentar impor algo a alguém. E por puro egoísmo: eu não faço contigo para que não faça comigo! 

De outro ponto de vista: te dou liberdade para que me a minha cresça. Talvez eu tenha transformado egoísmo em liberdade, embora continue mais egoísta que livre. Ainda assim, penso que  é melhor que fingir que não sou egoísta ou sufocar meu egoísmo, transformando água em vinho barato (como querem as religiões)! 

 Como disse Clarice: "Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro." 


terça-feira, maio 06, 2014

Quero ser just@

'Disse que vinha e veio, lá do norte...'


Ouvi uma vez, duas, três... seguidas vezes a música de Caetano Veloso e repetidas vezes me detive nesse verso inicial: 'Disse que vinha e veio! 

Pensei sobre esse encantamento da promessa cumprida. Uma coisa tão simples que não deveria causar nem encantamento, nem estranhamento, mas causa e a música exalta essa beleza de receber algo ou alguém esperado. 

Pensei o quanto nos acostumamos a viver em meio a promessas frouxas. Digo que vou, até quero ir, mas se qualquer outra coisa me detém, ainda que uma preguiça ou outra promessa, não vou ou não faço o que disse que faria.  Há, ainda, quem prometa mesmo sabendo que não vai cumprir, apenas para sair de alguma situação.  E esse é até um comportamento compreensível. São contratos sociais, particularmente um tipo de contrato social que muito me incomoda, mas que permanece e permanecerá. Está muito estabelecido e é, muitas vezes, oportuno. Não há esperanças! Acredito que a promessa cumprida seguirá despertando encantamentos, então... me deleito com a música e com a delícia que é encantar-se, ainda que não possamos 'manter a lua cheia acesa'. 

Segue a música, é melhor e mais bela que meus pensamentos: 





sábado, março 22, 2014

Onde chove

Fiquei ali parada
Esperando chover no deserto ...
Um
Dois
Três
Seis ou sete meses
Até que comecei a derramar
Chovi por dentro
Transbordei e fui embora!

segunda-feira, março 03, 2014

Entre mim e Maria


Tocar o corpo de alguém de quem se tem saudade é uma espécie de alucinação!
Uma tentativa enlouquecida de absorver o corpo do outro dentro do seu.
Um abraçar apertado com pretensões antropofágicas...
... um querer voraz!
Porque o que se quer é comer o outro,
ou sugá-lo de volta para dentro do seu próprio ser em uma verdadeira fagocitose...
Um frenesi que só acalma quando, alinhados, os dois corações batem compassados.
E declaram esse amor, que quer devorar ao mesmo tempo em que é capaz de se mutilar por sua outra parte. Essa metade que, desgarrada de si, traz a saudade e o faz canibal...

Canibal porque amor só se alimenta de amor!






quarta-feira, outubro 23, 2013

A espera de todo dia


Pra nascer...
Pra crescer...
Pra comer...
Pra gozar...

Todo dia esperar!

Todo dia alguém espera...

Todo dia você espera...

Todo dia...

- Um dia eu canso de esperar!

- Um dia? Eu canso todo dia!

- E o que você faz?

- Espero! ...

- Espero chegar o dia em que eu não tenha mais nada a esperar!

Lillian B.







quarta-feira, junho 12, 2013

Sigo!

Era um dia frio
Tudo estava ruim
Queria chorar, não conseguia....

Tomei um banho frio.
A água gelada feriu meu corpo
Enrijeceu minha pele.

Quis desistir
Mas permaneci ali
Firme, endurecida como meu coração
Que, finalmente, se entregou as lágrimas

Fiquei até o fim porque sabia
Que aquele frio iria passar
E que quando tudo acabasse eu estaria melhor
Limpa e com novas forças

Pensei...
Assim será quando esse tempo passar
Por isso sigo
Não sem tristezas
Repleta de incertezas...

 - Sigo!





quinta-feira, fevereiro 07, 2013

De onde se mira o luar


Há um não-lugar a que pertenço
Sai muitas vezes em busca dessas glebas
Procurei em vão
Ao chegar onde suspeitava ser
Logo percebia o engano
Não sei onde estão
Olho
Não sei onde fica
Não sei como chegar
Vou viver dessa busca
Do meu não-lugar

quinta-feira, dezembro 06, 2012

Obrigada!

É claro que eu vou chorar. Já o faço agora.
Se não choro, não sou eu.
Meus olhos teimam em derrarmar o que meu coração transborda.
E agora ele está apertado.
Vou embora.
Não sem querer.
Vou embora porque quero
Assim como quis vir
Mas a vida...
a vida segue muito além de nossas  escolhas.
Escolhemos e seguimos
Mas o que virá nunca sabemos
E eu não sabia
Vivi tanta coisa intensa nos últimos 3 anos que nem dá pra classificar em boas ou ruins
Só posso sentir que me fizeram bem, mesmo o que me fez chorar, sofrer e adoecer
Tudo me fez forte, me fez dura e sensível ao mesmo tempo.
Sigo para a fase seguinte sabendo que estou diferente
E me sinto melhor por isso

Inevitável chorar.
Principalmente porque nesse exercício de viver
encontramos tanta gente
Gente que quero deixar pra trás mesmo, mas que nem por isso me fizeram aprender menos
Gente que deixo agora com o coração apertado, pequenininho
Gente que me ensinou muito e gente que me mostrou que ainda tenho muito a aprender
Gente que segue comigo, onde quer que eu vá.

Odeio despedidas.
Só preciso dizer que amei. Que amo.
Preciso dizer obrigada!

domingo, novembro 25, 2012

Estranho...

Estranho isso de amar...
Um não saber cheio do desejo de conhecer
Uma calma repleta de inquietação
Um abraço carregado de afeto
E beijos sedentos do desconhecido
Estranho isso de sentir...

quinta-feira, outubro 25, 2012

... Aaaaahhhhh!!!!!!!

Ansiosa?!
Já mordi os lábios até sangrar
Continuo mordendo
Comi chocolate
(a minha cota anual de um pedacinho por ano porque normalmente detesto chocolate).
Estou com a concentração de um peixe beta no aquário
E vontade de chutar alguém ou qualquer coisa
Não sei se isso é ansiedade!!
Sinceramente!!!!
Só sei que dois meses podem demorar dois anos pra passar!

O pranto da vizinha

Da janela pude ouvir um choro sentido e profundo de mulher que vinha do andar de cima. Em apartamentos pequenos e antigos como esse em que vivo, ouve-se tudo. Conhecemos, obrigatoriamente, fragmentos da vida dos vizinhos. E hoje, seguia cá com minhas angústias, quando o som daquele pranto dolorido invandiu meu quarto. Parei. Ouvi inerte por uns cinco minutos ou mais.Tive vontade de subir e abraçar aquela desconhecida vizinha que aos prantos entregava a alma. Para mim, o choro é assim, desnuda, desarma e amolece a pessoa. Talvez ela precisasse de um abraço, de consolo ou só de companhia. Sentada em minha mesa de estudos já não conseguia mais escrever. Fui tomada pela inquietação. Percebi que nada poderia fazer. Aquelas lágrimas não me diziam respeito, mas ainda assim, o pranto me apertou o coração.  Permaneci ali. Fisicamente inerte, mas meu coração, tomado de assalto pela dor alheia, recordou suas próprias dores e não se aquietou mais.

domingo, outubro 14, 2012

Ansiolítico



Uma pontada no coração
Mãos geladas, corpo trêmulo
Lágrimas quentes
Descontrole
O corpo se revela assustador
A mente se perde
Confusão de sentimentos
Retornos e fracassos
Mudanças em curso
Caixas de papelão
espalhadas pela casa
Incertezas
Inquietudes
Palpitações
Tremores e temores
Sem diálogos
Sem trocas
Calmante
Sonolência
Lágrimas quentes
...



segunda-feira, setembro 10, 2012

Ao que foi



De um peito doente
De uma mente descrente
De um corpo cansado
De uma alma cativa
Ficam cicatrizes

Mas deixo que tudo passe
Deixo que tudo siga
Mesmo com lágrimas,
fico livre
Ainda que por instantes,
segundos, horas, dias...

Tudo se foi
Fico aqui para o novo
Para o que agora me arrebata
Que venha
Que eu sinta
Que pulse

Lillian



Há muito tempo uma música não me inspirava a escrever, como esta o fez. As linhas acima foram escritas ouvindo "Vivo de Novo" da banda paulistana Gram. Abaixo o vídeo...






segunda-feira, junho 18, 2012

Eu, Chico, Caetano, o tigre e o cocô













Na varanda de uma casa à beira mar, eu Chico Buarque e Caetano Veloso observávamos o mar que banhava o quintal e refletia a luz de uma lua de São Jorge, branca, linda e cheia.

Chico olha para mim e pergunta se quero repetir com ele a cena clássica que ele fizera com Caetano anos atrás: encher uma espécie de pipa de gás e voarmos juntos segurando a rabiola. Topei na hora.

Enchemos uma pipa em formato de navio e seguramos na rabiola juntos. Voamos livremente sobre a Guanabara (foi isso que Chico dizia) até passarmos por baixo de uma ponte quando eu cai no mar. Chico caiu antes e precisou nadar mais que eu para voltar até a margem. Com medo de tubarões, perguntei a Chico se era seguro nadarmos naquele mar escuro.

Ele respondeu que sim e fomos devagar até uma pequena margem, cheia de casas velhas. Parecia uma favela. Caetano ficou pra trás, foi embora e não voltou. Eu e Chico seguimos engatinhando por aquela pequena praia que misturava areia e mato. Parei. Senti uma mordida em minha mão. Era um tigre, pequeno, mas feroz. Chico, bravamente, matou o tigre e me protegeu.

Entrei em uma espécie de hotel e tudo que queria era tomar banho. Estava suja, mas encontrei minha mãe e meu irmão e contei minha gloriosa história ao lado de Chico Buarque.  Estávamos todos no hotel, construído em um prédio antigo, cheio de rachaduras e portas antigas. Consegui um quarto e poderia, finalmente, tomar banho, mas a lâmpada queimou. Estava no escuro. Não havia como trocar, então fui usar a banheira da suíte em que minha mãe estava hospedada, mas para minha surpresa, a banheira estava cheia de cocô. Ela me disse: Essa banheira não pode ser usada, ai a dona do hotel coleciona cocô.

Apareceu uma senhora de cabelos grisalhos, uma saia velha cinza e uma camiseta larga verde. Me entregou uma lâmpada em formato de garrafa de pinga. Quando tentei trocar a outra, que havia queimado, voltou a funcionar.

Acordei.

domingo, maio 20, 2012

Casos de amor

Está em cada poesia
Em cada lágrima
Em cada carícia
Na vida, meu amigo,
Os melhores casos de amor
São aqueles jamais vividos

quarta-feira, maio 09, 2012

Pra onde?

Pra onde esse ônibus vai?
- Não sei!
Por que entrei nele?
- Não sei...
... talvez para não chegar.

terça-feira, maio 08, 2012

A distância diária de cada um

O dia finda e todos falam ao celular
Penso em meus problemas
Lembro das pessoas que me esqueceram
Me esqueço das que talvez se lembrem de mim

A meu lado todos ao celular
Cada passante da escura estação
Fala ao celular
Eu, invisível, os observo
E guardo a íntima companhia
de meu bloquinho de anotações

Um deles pergunta:
- O que está fazendo?
Outro responde em outra órbita:
- Estou a caminho, mas vou demorar!
Outros falam de suas teses,
dissertações, dores e do bebê
que acabara de nascer

Penso na ausência
de cada um dos interlocutores
que não consigo ver
E vejo o olhar distante daqueles
que conversam em suas caixinhas de falar

Tudo é ausência e distância



sexta-feira, abril 20, 2012

Saudade (Augusto dos Anjos)

E porque hoje (20/04) seria aniversário do poeta Augusto do Anjos, resolvi publicar esse poema. A obra dele foi muito importante para que eu me apaixonasse tanto pela poesia, ainda no início da adolescência.
Saudade


Hoje que a mágoa me apunhala o seio,
E o coração me rasga atroz, imensa,
Eu a bendigo da descrença em meio,
Porque eu hoje só vivo da descrença.

À noite quando em funda soledade
Minh'alma se recolhe tristemente,
Pra iluminar-me a alma descontente,
Se acende o círio triste da Saudade.


E assim afeito às mágoas e ao tormento,
E à dor e ao sofrimento eterno afeito,
Para dar vida à dor e ao sofrimento,


Da saudade na campa enegrecida

Guardo a lembrança que me sangra o peito,
Mas que no entanto me alimenta a vida.