quinta-feira, maio 25, 2023
Silêncio
segunda-feira, abril 24, 2023
O sofrer é sozinha
A partir do celular partilhei minha dor com algumas pessoas
Mensagens, ligações e ele...
O algoritmo, atento, tomou as rédeas
Todos os dias passou a me enviar uma frase, uma oferta de autoajuda
Uma pseudo ajuda. Algumas para vender cursos, outras para vender terapias diversas.
Hipocrisia que até irrita!
Em um desses conselhos de internet estava escrito:
"É preciso muita maturidade para ser quebrado ao meio e sofrer sem fazer barulho".
Sofrer calada...
...
...
O preço de demonstrar fragilidade nesse mundo instagramável é alto demais.
Você está sofrendo? Por isso? Você é maior que isso!
Que bobagem, leia autoajuda, se empodere e siga para a próxima estação!
Quanta mentira!
Quanta bobagem fingir que não sente.
Performar perfeição
Me quero imperfeita.
Quero gritar minha dor
Em palavras
Pinceladas
Gritos
Conversas
Abraços
Beijos
Cheiros
Gostos
Por que sofrer calada e quietinha enquanto quero gritar a dor de um peito rasgado?
Desnudar minha alma
Derramar a água turva que carrego
Largar meu corpo nessa mesma água que transborda de meus olhos!
Assumir a dor não me faz menor
Assumir que estou quebrada me lembra que sou frágil.
De carne, vísceras e fluídos
Me lembra que sou breve
Que quero sentir a vida sem anestesia
Enquanto sangrar, eu vou gritar
De alguma forma.... eu vou gritar!
Mas não se preocupe
Esse tipo de barulho não vai te incomodar
Ele só é partilhado com quem sabe ouvir o silêncio
O sofrer é sozinha
A elaboração desse sofrimento pode ser partilhada
Com aquelas que caminham conosco
Com quem não tem medo de se assumir frágil e breve
Com quem, de verdade, partilha travessias.
Tá sangrando. Me dê a mão.
Lillith
24.04.23
quinta-feira, janeiro 05, 2023
Dos ruídos da existência
Na atitude do outro é fácil reconhecer o egoísmo
Na atitude do outro é fácil reconhecer limitações
Desafio é entender quando somos egoístas em nome da liberdade
Desafio é entender que, na relação com o outro, existem limites
Limites, que se compreendidos, ampliam nossa própria liberdade
Liberdade sem atenção ao outro é solidão
É silêncio
Não falo da solidão que estrutura nossa própria existência
Essa é alicerce
Falo de isolamento
Da incapacidade de nos relacionarmos
Da solidão ocasionada da impossibilidade de ouvir o outro
Se não ouço, esse outro para mim não existe
Silêncio
Ruídos
terça-feira, setembro 20, 2022
2022
Eu só queria um lugar para repousar
Deixar de sentir tanta angústia
A caminhada sob o sol do deserto
Segue sem descanso
Segue sem trégua
Sem sombras
Sem alentos
Sem abraços abrigos
Tenho sede
Mas com o coração exausto
Sigo a sonhar com um oásis
Ele há de chegar
Há de haver um lugar para repousar
Sem espinhos
Sem farpas
Com afeto
Travessia
quarta-feira, abril 13, 2022
Encontros efêmeros
Queria te ver parar
Contemplar
Ouvir teu silêncio
Compartilhar o mesmo ar
Estar
Encontrar o ponto onde repousa o olhar
Kairós
Apaixono-me por ti
Ao perceber o desejo em seu olhar
O querer estar
Inteiro
Não quero medir meu desejo
Desejo
Imersa
Estou
Até que inesperadamente
Levanta-te
Já não estás
Seu olhar vagueia
Já não reflete a paisagem
Um lago de águas claras que se turvam
Chronos
Seus passos te levam
Distante contemplo
Silêncio
Já não estás
Estou
E ainda queria te ver parar
Lembrança
(Brasília, 12.04.22)
terça-feira, dezembro 14, 2021
mar, cielo y luna
Suas palavras encadeadas desenham a poesia que me transporta
Me leva ao poderoso instante
em que o céu beija o mar
E em que a lua, inteira,
se
desdobra sobre os dois.
Inunda-os.
Daqui, do meu des(conhecido) não-lugar,
estremeço.
Sou inundada pela luz prata que emana de sua voz.
Em reverberações e
reflexos - sem reflexões-, me entrego ao ritual.
Cada centímetro de minha pele goza.
Suada e inteira
me conecto ao inteiro
que me chega de ti.
Minha respiração encontra o ritmo das
ondas.
Das mesmas ondas que se entregam ao luar e recebem dele todo
o brilho.
Sei que a mesma lua que te banha, me penetra.
Te ouço, te sinto, te
engulo.
Talvez, tenha sido iniciada em seu ritual.
Lillian, 14/12/2021
segunda-feira, dezembro 07, 2020
Encruzilhada
Daqui de dentro, meu passado parece distante demais.
O futuro ainda vislumbro em desfoque. Um borrão.
Jamais estive tão presente.
Justo agora que estou tão cercada de ausências.
Nunca foi destino.
Sempre foi travessia.
É na encruzilhada que a vida acontece.
Goiânia, dezembro de 2020.
terça-feira, outubro 13, 2020
Você, Caymmi e aquele domingo de manhã em Itapuã
Você atravessou a rua para ir até a estátua de Dorival Caymmi. Nem me lembro o que foi fazer lá, só sei que fotografei você em meio a beleza e ao caos de Itapuã. Carros, mar, sol, suor, vento, pagodão, funk e você a atravessar a rua em câmera lenta. Você estava tão bonito aquele dia que se soubesse estragaria tudo, então, me calei e só contemplei.
A fotografia ainda guardo em meio a tantas outras em meu celular, mas o mais bonito registro daquele dia está em minha memória. Porque é onde sua imagem se mistura ao gosto de cerveja da sua boca, às memórias de seus lábios macios. Aquele cheiro de luxúria, bem querer e boemia. Você estava tão falante, até mais que o normal. Falava tanto, tanto, tanto que até eu que também sou verborrágica, me fiz contemplativa. Eu te ouvia, um pouco bêbada e era domingo de manhã. Eu desejei permanecer ali, naquela mistura de sol, areia, suor, ressaca e trocas intensas.
Mas sempre soube que não permaneceria. Não! Você já havia dito que não. Depois disse que sim. Eu já havia dito que não. Depois disse que sim. Nós já tínhamos combinado que não e nunca que sim. Então, não! Seria apenas quando desse, se desse até porque nem todos os encontros eram poéticos como aquele. Você é caos. Confusão e gritaria. Era e não era. E minha impaciência me despertou para alguma sensatez.
Mas não naquele dia. Aquele dia era a despedida, mas ninguém de nós sabia. Tinha um quê de despedida, um gosto de despedida, mas ninguém de nós sabia! Tomamos uma, duas, três cervejas no café da manhã. A despedida não queria acontecer, mas depois de várias cervejas e alguns cigarros você entrou naquele ônibus e se foi. Eu voltei pra casa, pra cama que ainda tinha seu cheiro e esse cheiro nunca saiu de lá. Eu sai. Me mudei. Depois veio o carnaval e por fim o caos da pandemia. 2020!!!
Não nos vimos mais, nem sei dizer se voltaremos a nos encontrar. É 2020 e nenhuma previsão pode haver, mas agradeço tanto a beleza daquele último encontro. Você e Dorival Caymmi na praia de Itapuã. Mesmo que eu nunca mais repouse meu olhar em seus olhos profundos e nunca mais sinta a textura de seus lábios (e que saudade deles!), ainda assim terá sido um dos melhores últimos encontros dessa trajetória que é a vida.
Não importa o que não deu certo, importa o que deu. O encontro aconteceu. Sou grata. Teu lugar em meu coração será sempre de acolhimento, moradia e afeto. Um viva aos afetos. Que logo a vida volte a ser intensa! Que os olhares se entrelacem, que a gente volte aos abraços demorados. Que a vida volte a pulsar porque somos "amor da cabeça aos pés".
Lillian
quinta-feira, junho 11, 2020
A democracia sangra. #ForaBolsonaro
Sinto uma dor imensa.
Meus olhos derramam
Incontroláveis lágrimas
Um golpe
Outro golpe
Já não sei de onde vêm
Sei que dói
Dói por esse Brasil de quase 40 mil mortos
Dói por essa falta de perspectiva
Pessoal e coletiva
Dói ver o poder corrosivo se espalhar
Dói ver a fome voltar a matar
Dói ver o racismo avançar
Lá em 2018 tanta gente digitou 17 naquela urna
Acionaram o botão da destruição
que agora parece incontrolável
Dói e essa dor é física
Aperta o peito
Corrói
Todo dia várias perdas
E há perdas tão profundas...
Nossos peitos estão abertos
Repleto de chagas
Ardem
Só não chora quem está do outro lado
Desses quero distância
Do lado de cá meus olhos seguem inchados
Meus parceiros estão distantes
Sinto falta dos abraços
Todos amargam essa dor corrosiva
Mas quando essa escuridão passar
Vamos andar por aí de novo
corações machucados,
mas cabeças erguidas
Honrando os que partiram
Nos ajudando, reconstruindo
Destroçados estamos, mas com a certeza
de que não desistimos do mais importante
da luta por igualdade,
por Democracia
E de ter esperança,
De resistir até o último suspiro,
mesmo que agora sangre tanto.
Vai passar.
Lillian Bento
11.06.2020
#ForaBolsonaro
#FascistasNãoPassarão
#VidasNegrasImportam
#QuemMandouMatarMarielle
#BolsonaroGenocida
sábado, março 07, 2020
Daquele olhar que se derrama
Como um óculos de lentes embaçadas
a cobrir o verdadeiro olhar daquele homem
Afinal, o brilho do olhar nos expõe em demasia
Revela nossos desejos e medos mais profundos
Nos coloca no cerne da vulnerabilidade
E me atravessava com o olhar arredio e inquieto
Dizia querer ficar, mas seu olhar entregava o contrário
Porque despir-se seria demais
E olhar profundamente é despir-se
Despediu-se com um olhar flutuante
Atrás das lentes embaçadas vi um brilho guardado
Aqueles olhos escuros eram como represas de desejos e segredos
Guardei na memória
Como a fotografia em branco e preto de um oceano revolto.
sábado, janeiro 19, 2019
Coragem é saber transbordar
segunda-feira, julho 09, 2018
Disritmia líquida
O coração se alegra
Os olhos sorriem
O coração se ressente
Os olhos ressecam
O coração sente medo
Os olhos esbugalham
O coração se parte
Os olhos derramam
Meus olhos agora inundam meu rosto
As lágrimas salgadas invadem minha boca
Um pedido de socorro de um coração que arde
De um coração que dói
De um coração que está apertado
De um coração que não sabe o que fazer com o vazio
De um coração que queima
De um coração que se encontra... perdido!
domingo, abril 01, 2018
Das portas abertas
segunda-feira, setembro 25, 2017
Gozo sonhado é gozo
Raras vezes são ruins, mas quando isso acontece e acordo com vontade de jamais ter te conhecido, logo lembro que a vida é linda justamente pelas costuras tortas que faz e percebo que desejar fugir seria bobagem. Se, ao te conhecer, permiti que fizesse morada nos recôncavos mais profundos do meu coração há nisso tal singularidade e beleza que já não importam os caminhos que virão.
Sei que onde residem o amor, a quietude e o prazer também estão guardadas a dor, a angústia e as incertezas. É ali nos ocos mais profundos da alma que ficam todos esses sentimentos intensos. Lembro que quando mais jovem me deixava derrubar pelas tempestades a cada vez que remexia nessas zonas profundas. Vibrava de euforia na mesma intensidade em que me deixava abater por intensas tristezas.
A saída quase sempre era a fuga. Muitas vezes ainda é, não posso negar, o que mudou é que hoje já não corro da dor, da frustração e das incertezas. Tal qual o amor ou o gozo, as experimento em profundidade. É melhor controlar os raios e os ventos com a espada de fogo de Iansã que negar as tempestades. Sentindo os ventos revoltos é que comecei a experimentar o peso e a leveza dos amores não vividos.E você seguirá comigo.
Se há dor na ausência, há gozo na saudade. Nos sonhos, nas recordações. Nem todo amor é para ser vivido, nem todo gozo é para ser molhado. Te guardo na lembrança do abraço não dado, do beijo não trocado, dos lençóis não partilhados. Te guardo na calmaria de te lembrar em algumas de minhas canções favoritas, na voz da Maria Bethania, ou na poesia de Fernando Pessoa, que na voz de Ricardo Reis entoa:
"Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos, se quiséssemos trocar beijos e abraços e carícias, mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro ouvindo correr o rio e vendo-o". Seguirás comigo ainda que na distância. Seguirás nas profundezas que habitas e nem sabes. E é novamente nas palavras de Fernando Pessoa que te digo:
Gozo sonhado é gozo, ainda que em sonho.
Nós o que nos supomos nos fazemos,
Se com atenta mente
Resistirmos em crê-lo.
Não, pois, meu modo de pensar nas coisas,
Nos seres e no fado me consumo.
Para mim crio tanto
Quanto para mim crio.
Fora de mim, alheio ao em que penso,
O Fado cumpre-se. Porém eu me cumpro
Segundo o âmbito breve
Do que de meu me é dado.
(Ricardo Reis, 30.01.1927)
Lillian.
| Nas ruas de Goiânia. Foto: Lillian Bento |
sábado, março 04, 2017
Que sangre, escorra até estancar
Deixar que o sangue escoe
Sentir a dor que pulsa
A lágrima que quente corre
Estar ali ainda quando o sangue secar
Quando a lágrima cessar
Sentir a dor e ver cicatrizar
Levantar e seguir por outro caminho
Estar pronta quando voltar o riso
Estar em paz para o outro dia
Os novos momentos
Os novos pulsar
Reconhecer o prazer de outros ventos
que tocam a pele
Das novas águas que correm no rio
Das novas carícias
Dos novos abraços
De outros beijos
segunda-feira, outubro 31, 2016
Origami
Há seis meses as letras borradas
Há seis meses, recolhidos no escuro,
meus olhos se aquietam
pouco enxergam, muito veem
Imersos em descobertas interiores,
meus pensamentos imprecisos
desejam ganhar o papel
Em vão.
Seguem aprisionados e na escuridão
buscam entender as novas descobertas
Muito vejo, pouco digo
Estranha sensação!
Lá fora o mundo parece igual
Ouço o tintilar dos copos
O burburinho das ruas
O acariciar dos corpos
Aqui dentro...
Bem,
As palavras seguem insuficientes
Do papel faço um origami
sábado, julho 02, 2016
(re)conhecendo-me
Houve um 'onde' em que de ouvidos tapados eu me escondia
Agora, recolhida na escuridão e no silêncio, vejo e ouço com inigualável clareza
Daqui desse quando e onde tão íntimos me conheço e reconheço
com apreço e uma incipiente serenidade
Cada dia e cada noite são mais meus
Cada cor e cada som são mais sentidos
O corpo se abre a novas experiências
Porque a experiência reconhece meus novos 'eus'.
terça-feira, maio 03, 2016
Falhou. Estou cansada.
terça-feira, outubro 06, 2015
O que de ti ficou em mim
A verdade é que seus cabelos longos daquele tempo, os dedos magros e esguios como seu corpo, o olhar profundo e o sorriso frouxo eram a moldura perfeita para alguém tão plural, encantador e doce. Seguimos juntos e separados por semanas, meses e anos. Eram encontros e desencontros e um ardente desejo que me unia a você. Sempre houve magia, sempre houve tesão, sempre houve querer e palpitação, mas nunca alimentamos uma dessas paixões que preocupam, que desejam controlar o outro e que, como diria Fernando Pessoa, 'dão movimento demais aos olhos'. Nossos encontros sempre foram esporádicos, mas intensos. Em cada um deles, sentia o corpo em brasas e me enrolava em seus braços, mãos, pernas e cabelos. Tudo era fluido. Você vinha e ia sem nunca permanecer. Essa falta de rotina me seduzia. Nunca houve espera, algumas vezes nasceram expectativas e ciúmes, mas nada me corroía a não ser o desejo que surgia quando meus olhos encontravam, entre tantos outros, seus olhos atentos e seu sorriso de canto de boca.
Era incontrolável. Um desejo imenso de engolir seu corpo e consumir suas energias. Seguimos assim, por tantos anos e muitos encontros regados a saliva, sêmen e suor. Até que um silêncio maior se estabeleceu e voltamos a nos reencontrar surpreendentemente sem beijos, nem gozo. Conversamos timidamente, eu disse tchau e fui embora. Levei comigo a dúvida: seria uma pausa ou o fim de um ciclo, o fim do que teria sido nosso (in)constante setênio. Não sei. Ainda não sei. Só sei que contra os ciclos da vida não é possível lutar e agora seguimos separados. Não trocamos mais olhares ardentes ou passamos madrugadas falando sobre Caetano. Sei apenas que segues comigo, afinal deixaste muito de ti em mim. Hoje sou outra, mas tenho uma certeza: eu te amei e ainda te amo, como amei e amo outros de meus grandes amores: tranquilamente...
"(...) pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência."
(Trecho do poema 'Vem Sentar-te Comigo Lídia' de Ricardo Reis/ FP)
terça-feira, setembro 08, 2015
Cheia de mim
Cheia de euforia
Cheia de agonia
Cheia de tudo
... e de nada
Cheia de falar
Cheia de ouvir
Cheia de chorar
...e de sorrir
Estou derramando ...
me perdendo em meus próprios fluídos,
escapando de mim entre meus dedos...
Preciso entrar,
me aquietar aqui dentro.
Dar vazão aos excessos
Reencontrar meus vazios
Sossegar
... dos pensamentos de uma noite de chuva, de transbordamentos e angústias
Lillian
Araraquara, setembro de 2015



