terça-feira, setembro 20, 2022

2022

Eu só queria um lugar para repousar

Deixar de sentir tanta angústia

A caminhada sob o sol do deserto

Segue sem descanso

Segue sem trégua

Sem sombras

Sem alentos

Sem abraços abrigos 

Tenho sede

Mas com o coração exausto

Sigo a sonhar com um oásis

Ele há de chegar

Há de haver um lugar para repousar

Sem espinhos

Sem farpas

Com afeto

Travessia




quarta-feira, abril 13, 2022

Encontros efêmeros


Queria te ver parar
Contemplar
Ouvir teu silêncio
Compartilhar o mesmo ar
Estar
Encontrar o ponto onde repousa o olhar

Kairós

Apaixono-me por ti
Ao perceber o desejo em seu olhar
O querer estar
Inteiro
Não quero medir meu desejo

Desejo

Imersa
Estou

Até que inesperadamente
Levanta-te
Já não estás
Seu olhar vagueia
Já não reflete a paisagem

Um lago de águas claras que se turvam

Chronos

Seus passos te levam
Distante contemplo
Silêncio
Já não estás
Estou
E ainda queria te ver parar

Lembrança


(Brasília, 12.04.22) 




terça-feira, dezembro 14, 2021

mar, cielo y luna

 

Suas palavras encadeadas desenham a poesia que me transporta
Me leva ao poderoso instante
em que o céu beija o mar
E em que a lua, inteira,
se desdobra sobre os dois.
Inunda-os.
Daqui, do meu des(conhecido) não-lugar, estremeço.
Sou inundada pela luz prata que emana de sua voz.
Em reverberações e reflexos - sem reflexões-, me entrego ao ritual. 
Cada centímetro de minha pele goza.
Suada e inteira me conecto ao inteiro
que me chega de ti.
Minha respiração encontra o ritmo das ondas.
Das mesmas ondas que se entregam ao luar e recebem dele todo o brilho.
Sei que a mesma lua que te banha, me penetra.
Te ouço, te sinto, te engulo.
Talvez, tenha sido iniciada em seu ritual.

Lillian, 14/12/2021

segunda-feira, dezembro 07, 2020

Encruzilhada








Daqui de dentro, meu passado parece distante demais. 
O futuro ainda vislumbro em desfoque. Um borrão.
Jamais estive tão presente.
Justo agora que estou tão cercada de ausências.
Nunca foi destino.
Sempre foi travessia.
É na encruzilhada que a vida acontece.


Goiânia, dezembro de 2020.





terça-feira, outubro 13, 2020

Você, Caymmi e aquele domingo de manhã em Itapuã




Você atravessou a rua para ir até a estátua de Dorival Caymmi. Nem me lembro o que foi fazer lá, só sei que fotografei você em meio a beleza e ao caos de Itapuã. Carros, mar, sol, suor, vento, pagodão, funk e você a atravessar a rua em câmera lenta. Você estava tão bonito aquele dia que se soubesse estragaria tudo, então, me calei e só contemplei. 

A fotografia ainda guardo em meio a tantas outras em meu celular, mas o mais bonito registro daquele dia está em minha memória. Porque é onde sua imagem se mistura ao gosto de cerveja da sua boca, às  memórias de seus lábios macios. Aquele cheiro de luxúria, bem querer e boemia. Você estava tão falante, até mais que o normal. Falava tanto, tanto, tanto que até eu que também sou verborrágica, me fiz contemplativa. Eu te ouvia, um pouco bêbada e era domingo de manhã. Eu desejei permanecer ali, naquela mistura de sol, areia, suor, ressaca e trocas intensas.  

Mas sempre soube que não permaneceria. Não! Você já havia dito que não. Depois disse que sim. Eu já havia dito que não. Depois disse que sim. Nós já tínhamos combinado que não e nunca que sim. Então, não! Seria apenas quando desse, se desse até porque nem todos os encontros eram poéticos como aquele. Você é caos. Confusão e gritaria. Era e não era. E minha impaciência me despertou para alguma sensatez. 

Mas não naquele dia. Aquele dia era a despedida, mas ninguém de nós sabia. Tinha um quê de despedida, um gosto de despedida, mas ninguém de nós sabia! Tomamos uma, duas, três cervejas no café da manhã. A despedida não queria acontecer, mas depois de várias cervejas e alguns cigarros você entrou naquele ônibus e se foi. Eu voltei pra casa, pra cama que ainda tinha seu cheiro e esse cheiro nunca saiu de lá. Eu sai. Me mudei. Depois veio o carnaval e por fim o caos da pandemia. 2020!!!

Não nos vimos mais, nem sei dizer se voltaremos a nos encontrar. É 2020 e nenhuma previsão pode haver, mas agradeço tanto a beleza daquele último encontro.  Você e Dorival Caymmi na praia de Itapuã.  Mesmo que eu nunca mais repouse meu olhar em seus olhos profundos e nunca mais sinta a textura de seus lábios (e que saudade deles!), ainda assim terá sido um dos melhores últimos encontros dessa trajetória que é a vida. 

Não importa o que não deu certo, importa o que deu. O encontro aconteceu. Sou grata. Teu lugar em meu coração será sempre de acolhimento, moradia e afeto. Um viva aos afetos. Que  logo a vida volte a ser intensa! Que os olhares se entrelacem, que a gente volte aos abraços demorados. Que a vida volte a pulsar porque somos "amor da cabeça aos pés". 

Lillian



quinta-feira, junho 11, 2020

A democracia sangra. #ForaBolsonaro

Há gosto de sangue na garganta
Sinto uma dor imensa.
Meus olhos derramam
Incontroláveis lágrimas
Um golpe
Outro golpe
Já não sei de onde vêm
Sei que dói

Dói por esse Brasil de quase 40 mil mortos
Dói por essa falta de perspectiva
Pessoal e coletiva
Dói ver o poder corrosivo se espalhar
Dói ver a fome voltar a matar
Dói ver o racismo avançar

Lá em 2018 tanta gente digitou 17 naquela urna
Acionaram o botão da destruição
que agora parece incontrolável

Dói e essa dor é física
Aperta o peito
Corrói

Todo dia várias perdas
E há perdas tão profundas...
Nossos peitos estão abertos
Repleto de chagas
Ardem

Só não chora quem está do outro lado
Desses quero distância

Do lado de cá meus olhos seguem inchados
Meus parceiros estão distantes
Sinto falta dos abraços
Todos amargam essa dor corrosiva

Mas quando essa escuridão passar
Vamos andar por aí de novo
corações machucados,
mas cabeças erguidas

Honrando os que partiram
Nos ajudando, reconstruindo
Destroçados estamos, mas com a certeza
de que não desistimos do mais importante
da luta por igualdade,
por Democracia
E de ter esperança,
De resistir até o último suspiro,
mesmo que agora sangre tanto.

Vai passar.

Lillian Bento
11.06.2020

#ForaBolsonaro
#FascistasNãoPassarão
#VidasNegrasImportam
#QuemMandouMatarMarielle
#BolsonaroGenocida

Torcedores do Corinthians impedem manifestação pró Bolsonaro na ...

sábado, março 07, 2020

Daquele olhar que se derrama


Havia um brilho quase ausente naquele olhar opaco
Como um óculos de lentes embaçadas
a cobrir o verdadeiro olhar daquele homem

Essa opacidade parecia o proteger
Afinal, o brilho do olhar nos expõe em demasia
Revela nossos desejos e medos mais profundos
Nos coloca no cerne da vulnerabilidade

Deitado naquela cama, ele me olhava atravessado
E me atravessava com o olhar arredio e inquieto
Dizia querer ficar, mas seu olhar entregava o contrário

O desejo era ter ao longe dali
Porque despir-se seria demais
E olhar profundamente é despir-se

Fumou um ou dois cigarros e partiu
Despediu-se com um olhar flutuante
Atrás das lentes embaçadas vi um brilho guardado
Aqueles olhos escuros eram como represas de desejos e segredos

Desejei ardentemente alcançá-los, mas recuei.
Guardei na memória
Como a fotografia em branco e preto de um oceano revolto.
Atiçou em mim uma curiosidade que se move igual Corisco. 

(Salvador. Bahia. 07 de março. 2020)






sábado, janeiro 19, 2019

Coragem é saber transbordar



As lágrimas quando caem no mar
Nos unem ao oceano
O mar também está dentro da gente
E a dor se esvai um pouquinho
Quando derrama pelos olhos
E vão ter ao longe
Onde residem todos os sentimentos,
As dores e os amores
Coragem é saber transbordar

(Lillian) 

Solaris (1972). Andrei Tarkovsky





segunda-feira, julho 09, 2018

Disritmia líquida

Só se conhece o coração a partir dos olhos

O coração se alegra
Os olhos sorriem

O coração se ressente
Os olhos ressecam

O coração sente medo
Os olhos esbugalham

O coração se parte
Os olhos derramam

Meus olhos agora inundam meu rosto
As lágrimas salgadas invadem minha boca

Um pedido de socorro de um coração que arde
De um coração que dói
De um coração que está apertado
De um coração que não sabe o que fazer com o vazio
De um coração que queima
De um coração que se encontra... perdido!







domingo, abril 01, 2018

Das portas abertas

São 35 anos, alguns amores e muitas paixões. 
Impulsiva, nunca achei difícil abrir portas 
Quando meu coração se converte em Corisco,
difícil é mantê-las fechadas
Tamanha é a força dos ventos que me movem
que não há porta que fique fechada!

Mas depois, quando vem a calmaria
E chega a hora da marcha estradeira
Das inevitáveis despedidas
Sigo, deixando as portas abertas
Como é difícil fechar portas.
Umas mais que as outras. 
Romper ciclos
Seguir sem olhar para trás 

Vez ou outra quando o presente esfria
O coração amorna
É bom saber que há para onde correr 
Onde estão encontros que trazem novamente 
movimentos e intensidades 
É bom e (tão egoísta) ter possibilidades 
Um caminho, um vício

Um vício que agora, 
No findar do meu quinto setênio,
Me traz incômodos
E revela importantes contradições 
É difícil perceber os ventos que arrebatam meu coração 
quando tantas portas estão abertas

E, apesar de não saber se as quero fechadas
Tomo uma distância para observar 
Sem julgar 
É desafio
Mas agora preciso desfrutar do silêncio 
para potencializar a escuta 
Recolher meus fragmentos 
Me reconhecer inteira. 

Lillian
 


segunda-feira, setembro 25, 2017

Gozo sonhado é gozo


Tem sido recorrente sonhar contigo. Talvez sonhe tanto, por ter assumido para mim mesma que amar nem sempre é estar junto e que a saudade pode ser boa conselheira. Sonhando eu expurgo os apegos e dou passagem para o que há de vir. Acordo sorrindo porque (quase sempre) são sonhos bons. Refletem a quietude e o prazer que sinto em sua companhia.

Raras vezes são ruins, mas quando isso acontece e acordo com vontade de jamais ter te conhecido, logo lembro que a vida é linda justamente pelas costuras tortas que faz e percebo que desejar fugir seria bobagem. Se, ao te conhecer, permiti que fizesse morada nos recôncavos mais profundos do meu coração há nisso tal singularidade e beleza que já não importam os caminhos que virão.

Sei que onde residem o amor, a quietude e o prazer também estão guardadas a dor, a angústia e as incertezas. É ali nos ocos mais profundos da alma que ficam todos esses sentimentos intensos. Lembro que quando mais jovem me deixava derrubar pelas tempestades a cada vez que remexia nessas zonas profundas. Vibrava de euforia na mesma intensidade em que me deixava abater por intensas tristezas.

A saída quase sempre era a fuga. Muitas vezes ainda é, não posso negar, o que mudou é que hoje já não corro da dor, da frustração e das incertezas. Tal qual o amor ou o gozo, as experimento em profundidade. É melhor controlar os raios e os ventos com a espada de fogo de Iansã que negar as tempestades. Sentindo os ventos revoltos é que comecei a experimentar o peso e a leveza dos amores não vividos.E você seguirá comigo.

Se há dor na ausência, há gozo na saudade. Nos sonhos, nas recordações. Nem todo amor é para ser vivido, nem todo gozo é para ser molhado. Te guardo na lembrança do abraço não dado, do beijo não trocado, dos lençóis não partilhados. Te guardo na calmaria de te lembrar em algumas de minhas canções favoritas, na voz da Maria Bethania, ou na poesia de Fernando Pessoa, que na voz de Ricardo Reis entoa:

"Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos, se quiséssemos trocar beijos e abraços e carícias, mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro ouvindo correr o rio e vendo-o". Seguirás comigo ainda que na distância. Seguirás nas profundezas que habitas e nem sabes. E é novamente nas palavras de Fernando Pessoa que te digo:

Gozo sonhado é gozo, ainda que em sonho.
Nós o que nos supomos nos fazemos,
Se com atenta mente
Resistirmos em crê-lo.
Não, pois, meu modo de pensar nas coisas,
Nos seres e no fado me consumo.
Para mim crio tanto
Quanto para mim crio.
Fora de mim, alheio ao em que penso,
O Fado cumpre-se. Porém eu me cumpro
Segundo o âmbito breve
Do que de meu me é dado.


(Ricardo Reis, 30.01.1927) 

Lillian. 

Nas ruas de Goiânia. Foto: Lillian Bento                                                             

sábado, março 04, 2017

Que sangre, escorra até estancar

É preciso olhar bem para a ferida
Deixar que o sangue escoe
Sentir a dor que pulsa
A lágrima que quente corre
Estar ali ainda quando o sangue secar
Quando a lágrima cessar
Sentir a dor e ver cicatrizar
Levantar e seguir por outro caminho
Estar pronta quando voltar o riso
Estar em paz para o outro dia
Os novos momentos
Os novos pulsar
Reconhecer o prazer de outros ventos
que tocam a pele
Das novas águas que correm no rio
Das novas carícias
Dos novos abraços
De outros beijos 


(Eu aqui... divagando porque gosto de vagar)

segunda-feira, outubro 31, 2016

Origami

Pouso, em vão, a caneta no papel
Há seis meses as letras borradas
Há seis meses, recolhidos no escuro,
meus olhos se aquietam
pouco enxergam, muito veem

Imersos em descobertas interiores,
meus pensamentos imprecisos
desejam ganhar o papel
Em vão.

Seguem aprisionados e na escuridão
buscam entender as novas descobertas
Muito vejo, pouco digo
Estranha sensação!

Lá fora o mundo parece igual
Ouço  o tintilar dos copos
O burburinho das ruas
O acariciar dos corpos
Aqui dentro...

Bem,
As palavras seguem insuficientes
Do papel faço um origami




sábado, julho 02, 2016

(re)conhecendo-me

Houve um 'quando' em que de olhos fechados eu não via
Houve um 'onde' em que de ouvidos tapados eu me escondia
Agora, recolhida na escuridão e no silêncio, vejo e ouço com inigualável clareza
Daqui desse quando e onde tão íntimos me conheço e reconheço
com apreço e uma incipiente serenidade
Cada dia e cada noite são mais meus
Cada cor e cada som são mais sentidos
O corpo se abre a novas experiências
Porque a experiência reconhece meus novos 'eus'.








terça-feira, maio 03, 2016

Falhou. Estou cansada.

Falta plural na fala
Falta plural na escrita
Faltam debates plurais.
Em vez de somar, o plural irrita
E nessa falta de ajuste entre plurais e singulares
'As conversa' são dispersas e os diálogos suprimidos
O que sobra mesmo é só desânimo...
... esse lugar de onde agora escrevo.

terça-feira, outubro 06, 2015

O que de ti ficou em mim

Talvez tenha sido com você que aprendi que amar é deixar partir. Que amor é liberdade! Ou, talvez (para ser mais honesta) eu nem tenha aprendido ainda, mas por certo foi com você que comecei a aprender. Sim, eu ardi de paixão por você! Acredito que logo na primeira conversa - eu tão menina e você falando de Foucault. A festa havia acabado e você me perguntou porque eu usava uma cruz invertida no pescoço,  comentou sobre minha roupa preta e disse ter gostado da minha meia arrastão. A madrugada  passou inteira em segundos e foi a primeira de tantas outras regadas a corpos entrelaçados, gozo, conversas intermináveis sobre Caetano, Doces Bárbaros, Filosofia, teatro e tantos outros assuntos que nos conectavam.  Me encantei por ti e esse encantamento durou bem mais que mil dias.

A verdade é que seus cabelos longos daquele tempo, os dedos magros e esguios como seu corpo, o olhar profundo e o sorriso frouxo  eram a moldura perfeita para alguém tão plural, encantador e doce.  Seguimos juntos e separados por semanas, meses e anos. Eram encontros e desencontros e um ardente desejo que me unia a você.  Sempre houve magia, sempre houve tesão, sempre houve querer e palpitação, mas nunca alimentamos  uma dessas paixões que preocupam, que desejam controlar o outro e que, como diria Fernando Pessoa, 'dão movimento demais aos olhos'. Nossos encontros sempre foram esporádicos, mas intensos. Em cada um deles, sentia o corpo em brasas e me enrolava em seus braços, mãos, pernas e cabelos.  Tudo era fluido. Você vinha e ia sem nunca permanecer. Essa falta de rotina me seduzia. Nunca houve espera, algumas vezes nasceram expectativas e ciúmes, mas nada me corroía a não ser o desejo que surgia quando meus olhos encontravam, entre tantos outros, seus olhos atentos e seu sorriso de canto de boca.

Era incontrolável. Um desejo imenso de engolir seu corpo e consumir suas energias. Seguimos assim, por tantos anos e muitos encontros regados a saliva, sêmen e suor. Até que um silêncio maior se estabeleceu e voltamos a nos reencontrar surpreendentemente sem beijos, nem gozo. Conversamos timidamente, eu disse tchau e fui embora. Levei comigo a dúvida: seria uma pausa ou o fim de um ciclo, o fim  do que teria sido nosso (in)constante setênio.  Não sei. Ainda não sei. Só sei que contra os ciclos da vida não é possível lutar e agora seguimos separados. Não trocamos mais olhares ardentes ou passamos madrugadas falando sobre Caetano.  Sei apenas que segues comigo, afinal deixaste muito de ti em mim. Hoje sou outra, mas  tenho uma certeza: eu te amei e ainda te amo,  como amei e amo outros de meus grandes amores: tranquilamente...

"(...)  pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
                   Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
                   Pagãos inocentes da decadência."

(Trecho do poema  'Vem Sentar-te Comigo Lídia' de Ricardo Reis/ FP)

terça-feira, setembro 08, 2015

Cheia de mim

Estou cheia
Cheia de euforia
Cheia de agonia
Cheia de tudo
... e de nada

Cheia de falar
Cheia de ouvir
Cheia de chorar
...e de sorrir

Estou derramando ...
me perdendo em meus próprios fluídos,
escapando de mim entre meus dedos...

Preciso entrar,
me aquietar aqui dentro.
Dar vazão aos excessos
Reencontrar meus vazios
Sossegar


... dos pensamentos de uma noite de chuva, de transbordamentos e angústias

Lillian
Araraquara, setembro de 2015







domingo, dezembro 07, 2014

Sobre o outro ou sobre redescobrir caminhos

Tão importante, quanto dolorido é viver a alteridade.
Respeitar o outro e compreender quando o querer do outro te incomoda
Quando o não querer do outro te confronta e ainda assim seguir e respeitar
Saber sentir o amargo da frustração e mudar a direção da caminhada
Sentir esse amargo e jogar fora a saliva para, em seguida, redescobrir os gostos que te dão prazer
Reconfigurar!
Reabrir todos os sentidos para o novo... de novo!
E, depois do sabor das lágrimas, sentir o prazer de sorrir outra vez
Um sorriso pleno, entregue e cheio de paixão por viver
Porque já passou o tempo da extrema racionalidade
É tempo de sentir plenamente, de pulsar, de ferver o sangue,
Saborear lentamente, inclusive a dor de interromper caminhos e a delícia de redescobrir os novos!




domingo, outubro 05, 2014

Do olfato, essa memória da pele.

Suspirei...
Uma memória
Um cheiro e essa sensação...
O olfato, a memória da pele
Esse prolongamento do tato
Aliado do prazer
Um suspiro
Um sorriso
De um momento que não dura, 
mas que segue na memória
guardado nesse cheiro de lua,
De rua, de álcool, de sangue e de suor
A sensação que valeu ter sentido
o efêmero e eterno tempo de ter um sorriso nos lábios.

Lillian B.

quarta-feira, julho 02, 2014

Eu, a troca-letras, por Marina Mercante!



Eu, troca-letras, um texto que me emocionou muito e que publico aqui para guardar como está guardado em meu coração. Escrito por minha amiga mais que amada, Marina Mercante, em sua pós-graduação em Jornalismo Literário, me descreves por inteira até hoje! Te amo, Ma! Obrigada sempre! 

Brasília – 2º bim – Marina Mercante/ Outubro de 2006


A troca-letras

Na estante, um CD de músicas para ninar ao lado de uma coletânea do Raul Seixas. Em posição de destaque, os discos do Paulinho Moska, mostrando que eles são tocados com freqüência. No mesmo ambiente, uma fila de livros sobre comunicação social, política, redação. Os sinais visíveis de que naquele quarto dorme uma mulher adulta são poucos. A estante de livros e discos é o principal. Além dela, só mesmo abrindo as gavetas e as portas do guarda-roupa.

No mais, objetos infantis predominam. Brinquedos espalhados pelo chão, um peixe de pelúcia azul e amarelo em cima da cama e uma toalha da Cinderela estendida no arame do berço. Na parede do quarto, há a pintura de uma menina de cabelos curtos e dourados em um jardim. Pacientemente, ela assopra uma flor branca, sentada perto de uma árvore com flores de várias tonalidades. O quadro está logo acima de uma cômoda clara com maçanetas em forma de estrelas e luas, sobre a qual estão dispostos nove porta-retratos, todos eles com fotografias que registram momentos dos quase quatro anos de vida da pequena Maria, filha da protagonista desta história, Líllian. Até mesmo o nome completo da personagem remete ao universo infantil, das histórias em quadrinhos da Turma da Mônica. Líllian Bento. Sobrenome que dá margem a brincadeiras do tipo: você é primo do Chico Bento ou o quê?
O dia-a-dia da jovem jornalista é como o próprio quarto em pleno domingo à noite: bagunçado, mas colorido. Ela sabe fazer render as 24 horas de cada dia, para que tenha tempo para fazer tudo o que precisa: cuidar da Maria, ser jornalista e aproveitar os 20 e poucos anos de vida. Mais exatamente, 23, completados em março passado.

A gravidez precoce aconteceu ainda na faculdade, quando Líllian estava no 2º ano de comunicação social na Universidade Federal de Goiás (UFG) e começou a namorar um colega. O namoro começou no dia do meu aniversário, logo após uma festinha em um restaurante de Goiânia. E foi no dia do aniversário da Líllian, em outro restaurante da cidade, que fui a primeira pessoa a saber que ela estava grávida. Maria nasceu em novembro de 2002.

Encontros e Desencontros

Em julho, eu estava empolgada porque passaria um final de semana completo em Goiânia. Liguei para Líllian dias antes, combinei tudo e fizemos planos. No dia anterior à minha viagem, no entanto, recebi um telefonema com DDD 62. Era ela, dizendo que estava inscrita em um curso de capacitação para jornalistas com o tema Cobertura das Eleições e que viria para a Capital Federal passar sexta e sábado! Como eu precisava ir a Goiânia por conta de um casamento, o resultado foi uma troca de cidades. Ela se hospedou no meu apartamento e ficou sozinha por um dia (minha irmã, que mora comigo, também viajou).

Por um instante, fiquei chateada com o desencontro, mas analisando a situação percebi como aquilo tudo tinha a cara da Líllian. Quantas vezes combinamos alguma coisa e ela desmarcou na última hora, sempre com um forte motivo. “Não tenho culpa, o jornal que me escalou”. Acabei achando graça. Passar um final de semana juntas despendia todo um planejamento estratégico, por causa da nossa profissão, que brinca com o tempo. E lá estava ela, sozinha no meu apartamento, cuidando do meu peixe beta, que precisa ser alimentado diariamente. Quando ela voltou a Goiânia, teve tempo ainda de me contar que havia batizado o peixe de “Jhonny” e que tinha criado um vínculo emocional com o bichinho de estimação. “Que dó deixá-lo sozinho”.

Demonstrações de carinho como essa são novidades para Líllian e ela admite isso. Quando era mais nova, foi criticada por ter dificuldades em abraçar, beijar e dizer “eu te amo” para parentes, amigos e namorados. Com o nascimento da filha, essa distância entre sentir e demonstrar ficou menor. Mas nada em exagero. Líllian tem mais afinidade com as palavras e escrever é o melhor jeito que ela encontra para usá-las bem.

“Saí do jornal por volta de 22 horas. Em minutos estava na companhia confortante da pequena Maria. Ao me ver machucada ela virou-se de lado e chorou. ‘Fiquei triste porque você machucou’, disse entre lágrimas sentidas e o abraço mais gostoso que há no mundo. Ouvi tudo como se escutasse música clássica. A voz mais linda me contava os feitos mais interessantes do mundo. Fomos dormir. Depois de todo o stress de ter sido atropelada, fechei os olhos. Minutos depois os abri com a certeza de que veria a pequena já adormecida. Mas para minha surpresa, vi que os pequenos olhos me observavam. Por alguns minutos ela vigiou meu sono e ao me ver abriu um lindo e doce sorriso. E com magia plena me abraçou e encheu meu rosto de beijos. Os melhores do mundo. Naquele instante pensei: pode me faltar tudo, se sobrar esse sorriso meu mundo está completo. Não há atropelamento que me tire essa alegria e que abale esse amor”.

O trecho acima faz parte de um texto que está no blog da mãe da Maria. É no diário eletrônico também que ela desabafa sobre os anseios, as frustrações da vida profissional, embalada pelas experiências na cobertura diária de política para um jornal de grande circulação em Goiás.

 “O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente” Fernando Pessoa

Fã declarada do enigmático poeta e escritor português responsável pelos versos acima, Líllian não consegue fingir. Nem mesmo o registro de atriz profissional que ela tem desde a época de escola facilita qualquer tipo de atuação quando está lidando com a vida real. A autenticidade sempre prevalece. Se está nervosa, deixa transparecer de forma bem clara. Se algo a incomoda, não hesita em dizer. Se fica alegre, exala euforia. Pode até evitar as lágrimas, mas demonstra que por dentro está fervendo. Em geral, as frases são ditas por Líllian antes que ela conclua o pensamento.

Troca-letras

Há, entre a tribo de jornalistas brasileiros, uma forma carinhosa – ou seria irônica – de apelidar esses profissionais: “troca-letras”. A denominação se deve ao uso contínuo da língua portuguesa, ferramenta de trabalho para qualquer um que exerce a profissão, independente do veículo. A Líllian faz isso literalmente. Mas em vez de letras, ela troca as palavras. Tem uma facilidade para esquecer as coisas (para não dizer dificuldade em lembrar) e troca os vocábulos com freqüência, deixando o interlocutor da conversa bastante confuso. Coisas do tipo: “espera que eu vou trocar a Maria da fralda" ou "corta o telefone enquanto eu atendo a pizza". Diversão garantida.

Na semana em que eu preparava este perfil, tive o mais recente exemplo desse jeito “desmemoriado” de ser. No início da tarde de uma segunda-feira, ela deixou a filha na escola e foi em direção ao ponto de ônibus. Foi atropelada por um carro enquanto atravessava a faixa de pedestres, com o semáforo indicando a luz vermelha. Por sorte, sofreu apenas alguns ferimentos externos e pôde trabalhar no mesmo dia. À noite, quando ela me ligou para contar o que tinha acontecido, soltou a máxima: “Eu atravessei o ônibus e peguei a rua”. Na seqüência, soltou gargalhadas. O que ela queria mesmo dizer era que havia atravessado a via pública e tomado o coletivo, que a levaria ao jornal onde trabalha. Simples.

Sempre imaginei como seria a elaboração de uma matéria jornalística pela minha amiga “troca-letras”. Cheguei a perguntar-lhe se trocava muito as palavras enquanto fazia as entrevistas. Ela me respondeu que realmente fazia algumas confusões ao conversar com os entrevistados, mas que, ao final do texto, tudo se resolvia.