terça-feira, maio 12, 2009

Pensamentos

Não dá pra chegar numa estrada nova sabendo onde ela vai dar. Dá apenas para desejar e acreditar que o caminho leve a bons lugares e que os passos sejam acertados. Que a estrada seja essa, seja minha e não um atalho ou remendo qualquer. Tem coisas que não consigo expressar. É isso! Códigos, hábitos, truques, manias...

Eu quero te dar
E quero ganhar o que você me der
Eu quero te amar
Até não saber mais o que isso é
Eu quero querer
Igual a você assim sem disfarçar
E quero escrever
Uma canção de amor para nos libertar

De todos os códigos, hábitos, truques, manias
Que insistem em estar
No meio, no centro, no canto da gente
Em lugares que eu não quero andar
De cada imagem errada
Que a velha palavra usada nos trás
De tudo que signifique
Que para sermos um temos que ser iguais

(Moska)

sexta-feira, maio 08, 2009

Estranhamentos e adaptações

Cada pessoa que entra na nossa trajetória traz um mundo todo diferente para somar ao nosso. Nesse processo de associação, alguns estranhamentos são naturais e logo surgem. Jeito de ser, de encarar a vida, as situações, histórias. Tudo surge como uma nova pintura da vida na nossa frente. Estou nesse processo e, pensando nele, percebi que deixar o novo chegar é um processo também de revisão do nosso próprio mundo.

Aceitar o novo é um mexer no nosso próprio jeito de encarar a vida, é um exercício que chega a incomodar, afinal é muito mais fácil deixar como está. Porém, quando eu penso o quanto esse mundo novo pode acrescentar alegrias e momentos felizes, decido encarar a novidade e deixar o coração aberto. E, ainda que me sinta incomodada por mexer no que antes estava quieto, deixo que tudo seja revirado. Pois é depois da reviravolta que surge uma nova configuração mais bonita e harmônica que antes. É hora de mexer, ajeitar, revirar e aprender. É tudo novo, de novo!

terça-feira, abril 07, 2009

Frida Kahlo


Tenho pensado muito sobre o feminino e várias questões relacionadas a gênero (reflexo do mestrado, talvez). O legal é que nessa fase volto a Frida Kahlo só para lembrar que há mesmo muita beleza no ser mulher! Uma imagem que diz muito...

segunda-feira, abril 06, 2009

O que será que será?

O que será que será?
O que não tem certeza, nem nunca terá...
O que não tem conserto, nem nunca terá...
O que não tem tamanho...

sexta-feira, abril 03, 2009

Um amor pra toda vida (?)

Lillian Bento

Embalada pela velha mania de observar o comportamento humano e aproveitando uma fase sex in the city da vida (única coisa q tenho visto na TV ultimamente), quero escrever hoje sobre o amor! Ah, lá vem frases melosas e linhas sentimentais!!! Não. Nada disso. Longe disso. O quero falar é sobre as primeiras impressões de uma mulher sobre o amor, tão logo ela começa a se perceber como uma mulher - o que na minha adolescência seria por volta dos 18 anos, mas a cada ano essa idade fica menor, 15 ou 13 para algumas.

Agora há pouco observava no orkut o perfil de uma amiga da minha prima, que aos 18 anos fez um álbum de fotos do seu primeiro namorado. Com o título "Demorei muito pra te encontrar...", uma alusão à música de Vinícius Canturária, que ficou conhecida na voz de Fábio Jr. Demorou muito? É realmente 18 anos é muito tempo para viver sem o tal amor ideal. Todas as fotos, obviamente, traziam comentários de outras garotas da mesma idade. Uma delas dizia: "Amiga estou tão feliz por você!". Fiquei pensando por quê? Porque ela encontrou o grande amor, um companheiro ideal, mesmo sem saber o que seria um companheiro ideal.

Qual o problema da maneira apocalíptica com que adolescentes se entregam às paixões pueris? Nenhum. O que me intriga é a educação que, vai geração vem geração, continua a ensinar a mulher que a satisfação e realização pessoal é encontrar um homem, casar e conhecer a felicidade, que mesmo se não for tão real assim precisa ser mostrada, apresentada em álbuns de orkut, em mensagens apaixonadas e em frases românticas.

Neste nascer para a vida adulta e para os amores, fica uma lacuna para as meninas que não encontram o tal homem perfeito e começam a bater cabeça em relacionamentos frustrados. Para meninas que descobrem que gostam de meninas (essas devem sofrer muito) e simplesmente para quem escolhe deixar de lado essa tal necessidade de amar subitamente e estudar, trabalhar e investir em outras prioridades.

Claro, há exceções e mesmo quem não ligue para tais imposições sociais. Mas a mim, incomoda essa ideia de realização no outro, não porque não deva ser buscada, alcançada e vivida, mas porque a necessidade de ter alguém para mostrar e apresentar à sociedade pode deturpar a visão do que seja de fato o amor. E o que é? Eu sei? Não há como definir, mas prefiro ficar com o sentido filosófico do amor, um amor que está além das aparências ou da beleza exterior.

Um amor que não precisa dar satisfação, mas sim ocupar o espaço que falta na alma de alguém. Fiquei a pensar, se apresentar a experiência de Sartre e Simone de Beauvoir aos estudantes ainda no ensino médio não seria uma saída. Um exemplo de amor não compreendido pela Igreja Católica, mas que mostrava a importância de reconhecer no outro alguém necessário e respeitar as diferenças que este outro carrega. Ou mesmo a concepção de amor de Platão, pouco compreendido no senso comum.

A maioria das pessoas acredita que o amor platônico é o amor impossível, enquanto o que Platão sugeria era que o amor verdadeiro é o que supera o transitório, supera o momento e transcende. Tal sentimento não é necessariamente direcionado a alguém no sentido sexual e pode dizer respeito a qualquer campo da vida. Se tais palavras seriam aproveitadas por alguém no início da vida adulta não sei, mas já começariam a delinear a ideia de que amar é compartilhar com alguém, é estar com alguém e não TER alguém.

Não tenho, nem de longe, a pretensão de dizer o que é o amor, até porque tal definição não existe e o amor não está pronto, precisa ser conhecido, experimentado. É um processo gradual, que talvez tenha mesmo que começar de maneira apocalíptica. Vai saber....

sábado, março 21, 2009

Because

Why do I feel happy?

Because the world is round it turns me on
Because the world is round...

Because the wind is high it blows my mind
Because the wind is high...

Love is old, love is new
Love is all, love is you

Because the sky is blue, it makes me cry
Because the sky is blue

(John Lennon)

terça-feira, março 03, 2009

Tristezas folgadas

Quando uma tristeza vem. Deixe ela chegar, dê espaço e deixe que ela fale tudo o que tem a dizer. Abra os braços e abrace-a, mas diga logo que o tempo é curto. É preciso que ela seja breve e você firme, caso contrário ela pode te pedir para ficar mais, passar uma noite, o dia seguinte e até te convencer a deixá-la ficar. Se der espaço, logo chega outra. Elas são unidas. E se se sentem confortáveis logo se acumulam em seu peito até o limite do sufocamento. Até lhe faltar espaço para receber as alegrias, mais fulgazes e menos invasivas, porém bem mais agradáveis. Portanto, se receber a visita da tristeza, fique atento. Dê a ela o tempo mínimo necessário e a mande ir. Deixando bem claro: uma de cada vez!

=) Lillian Bento!!!

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Um plágio ou a metamorfose de um relato real

Por Lillian Bento

Parte 1: O encontro

Um vulto, outro vulto, outro vulto. Esta era a visão que Benedita tinha do centro da cama forrada com lençóis de cetim barato e vermelho de onde observava o vidro fosco da porta. Ela retocava o esmalte grená e ouvia no rádio baladas sertanejas enquanto aguardava que um daqueles vultos que passavam pelo corredor parasse diante da porta de sua suíte e entrasse subitamente para lhe tomar nos braços.

Um vulto, outro vulto, outro vulto. O movimento continuava enquanto Benedita passava o tempo imaginando quem seria o próximo homem a entrar ali e surpreendê-la com um buquê de rosas cor-de-rosa tal como sonhara durante toda a adolescência. Do auge de seus 36 anos, aquela mulher de estatura mediana e ancas avantajadas com a pele já maltrada pelos anos, mas carregada de maquiagem, sonhava como uma garota de 16 e aguardava a chegada do homem perfeito. Não precisava ser um príncipe, repetia para si mesma, mas alguém que a levasse para um passeio de mãos dadas em uma praça qualquer e a buscasse no trabalho.

- Alguém que me buscasse no trabalho! Suspirou. Isso sim é prova de amor, mandar flores nem tanto, mas ser esperada na saída do trabalho é o sonho de toda mulher - pensava alto.

Um vulto, outro vulto, outro vulto. Parou. A batida estridente na porta enferrujada interrompeu os pensamentos de Benedita. Ela escondeu os esmaltes, ajeitou o lençol, tirou o sutiã e se deitou sobre na cama cor de sangue com as ancas para cima, uma mini calcinha fio dental com estampa de oncinha e uma sandália dourada salto 15.

- Keila? perguntou o homem de barba cerrada, rosto marcado por expressões do tempo que vestia uma camisa de um tecido azul claro aberta até a altura do umbigo a exibir a protuberante barriga que lhe adornava a estrutura de pessoa magra. Aparentando não ter mais de 40 anos ele mantinha o olhar nos pés, como quem quisesse fugir da realidade que lhe cercava em paredes cobertas de mofo que marcava aquele reduto de luxúria da periferia da cidade.

-Olhe para mim... toque meus seios que te esperam - respondeu Benedita que se fizera a insinuante Keila com a entrada daquele estranho estranho.

-Tire a roupa

-Já estou quase sem

-Então vista mais roupas e tire-as

-Entendi, respondeu Keila, que aumentou o volume do velho rádio e embalada pela música sertaneja vestiu um pequeno vestido de cetim vermelho com zíper nas laterais e começou a se despir.

Tímido, o estranho ele olhava por cima dos óculos sem mover a cabeça que ainda mirava o chão.

Ela deitou-se na cama separando as pernas e exibindo-lhe toda sua nudez. Ele se aproximou e sentou na cama a lhe acariciar a barriga.

-Meia hora é 100. Completo é 130, disse Keila sem resposta. Ele continuou a lhe acariciar a barriga.

Em um movimento brusco, Keila o agarrou e fechou o homem entre suas pernas. Ele a empurrou com a mesma rapidez e sentou novamente na cama sem nada dizer.

-Já se passaram meia hora. Tá perdendo tempo e dinheiro, disse Keila já com um ar de irritação.

Em uma tentativa de estimular o cliente ela ajoelhou-se na cama e começou a acariciar o próprio corpo com as mãos embebidas com um óleo de amêndoa barato que estava na cabeceira da cama.

- Obrigada. Disse o homem que abriu a carteira, deixou 200 reais no lençol e saiu deixando a agora Benedita sem entender.

- Tá, quer me dar dinheiro fácil tudo bem, disse enquanto vestia a calcinha.

Ela deitou-se novamente e pegou um livro de palavras cruzadas para passar o tempo e esperar o próximo. Um vulto, outro vulto, outro vulto. Veio o próximo e três outros próximos naquele dia
que gozaram, pagaram e foram embora após dizer meia dúzia de palavras eróticas e ofensivas.

Era exatamente meia noite quando Benedita deixou a casa onde trabalhava para tomar o trem e seguir para a kit que dividia com outras três amigas que conhecera na prostituição. Na pracinha em frente à casa, que tinha fachada de boteco e um letreiro que dizia: Dose de amor, estava sentado o estranho cliente, que ainda fitava o chão e mexia os sapatos.

Ao ver Benedita ele levantou-se e a chamou pelo nome em voz alta.

-Quem lhe disse meu nome?

-Você

- Tá louco? Quando?

- Há 25 anos exatamente

Ela parou, sentiu seu corpo estremecer e com um frio na barriga se aproximou e retirou os óculos do rosto dele em um movimento suave e tímido das mãos. Pela primeira vez o homem ergueu o olhar e fitou os olhos negros de Benedita, manchados de maquiagem velha. Sem dizer nada, ele lhe acariciou o rosto e a beijou na boca. Atônita e se sentindo como uma adolescente, ela lembrou daquela figura enigmática que marcara sua adolescência e correspondeu o beijo.

- Jorge. Como me encontrou?

-Eu procurei por você. E a encontrei em uma vida muito diferente da que imaginara, mas com o mesmo brilho e vitalidade de seus 12 anos. Meu coração disparou como na época do colégio e me recusei a olhar para você.

-É estranho ver você tanto tempo depois.

-Imagino, não tenho mais a juventude de antes

-E eu caí na vida, como você pode ver
-Não me importo com isso. Também estive envolvido em uns negócios arriscados

-Que negócios?

- Bolsa de valores. Eu me tornei um jogador do mundo financeiro, me arrisco com ações e algumas mercadorias. Não vale a pena explicar.

- Porque está aqui na porta do meu trabalho?

- Estava esperando você sair

- Me esperando na porta do trabalho? - suspirou a lembrar dos sonhos pueris

-É. Queria te ver mais uma vez. Além do mais, não tenho onde passar a noite, resolvi ficar aqui debaixo desta árvore.

-Não tem pra onde ir? Pode ir pra minha casa, não é grande coisa e eu precisaria falar com as meninas que moram comigo, mas acho que tá limpo. Vamos?

-Não estou em condições de recusar, fui despejado da casa onde morava e agora preciso ajeitar minha vida. Obrigada, Benedita. - disse Jorge a lhe beijar todo o rosto.

- Onde você estava morando? Perguntou a curiosa Benedita.

- É uma longa história. Eu te conto assim que amanhecer o dia. Estava no Acre e vivi uns tempos na Bolívia. Vou te explicar tudo mais tarde, minha Ditinha. E por falar nisso Keila é um bonito nome, disse rindo.

Ele tomou as mãos de Benedita, que viu em minutos realizados dois de seus sonhos de juventude.

Parte 2: O desencontro

Ao chegar na casa de Benedita - um quarto grande dividido em três partes em um pequeno prédio de kitnets, Jorge acomodou-se ao lado de Benedita em sua pequena cama de solteiro.

- Porque não fica naquele quarto de hoje a tarde? Parece maior e mais aconchegante

- É alugado. Sete reais por hora utilizada, muito caro.

- Não quero mais que volte àquele lugar

- Mas acabamos de nos reencontrar

- Por isso mesmo, eu te reencontrei e agora é minha mulher. Quero começar uma vida nova e você esta comigo. Amanhã mesmo saio a procura de emprego e você não trabalha mais

A decisão unilateral de Jorge assustou Benedita, que apesar do medo sentiu-se feliz por ter pela primeira vez alguém que se oferecesse para cuidar dela.

-Ele pegou na minha mão e me esperou no trabalho, pensava enquanto tentava dormir.

No dia seguinte, Benedita não voltou ao Dose de Amor e nem ligou para dizer que não pretendia ir mais. De manhã, Jorge saiu como prometido e deixou um bilhete para Benedita:

“Keilinha minha, volto mais tarde com as novidades. Mil beijos,minha Benedita.”

Sentindo-se leve e feliz, keila passou o dia a limpar a kitnet como há tempos não fazia. Foi até a lojinha da esquina e comprou três arranjos de flores de plástico, frutas, e aromatizante para o ar. Limpou a casa toda para esperar seu novo e súbito amor. Preparou-lhe um jantar com o que de melhor sabia fazer na cozinha: lasanha.

Vestida em seu melhor vestido - feito de organza cor-de-rosa e com uma rosa da mesma cor nos cabelos negros, Benedita esperou. Da janela via passar os vultos e nenhum deles parava. Um vulto, outro vulto, outro vulto. Até que adormeceu sentada na mesa. Acordou com a estridente voz de Neusa, sua companheira de quarto.

- Que mesa linda, Bené! Preparou pra gente? Disse enquanto tirava o salto agulha e se despia.

- Preparei para minha imaginação - respondeu lacônica.

Vestiu-se com uma calça de couro, uma blusa vermelha e voltou ao Dose de amor. Na porta o dono a esperava:

-Porque faltou ontem sem avisar?

-Tive dor de estômago.

- Não vacile ou vai perder o ponto

-Eu sei.

Entrou na suíte, bateu a porta. Ligou o rádio. Deitou-se na cama e olhou para a porta. Um vulto, outro vulto, outro vulto.

quarta-feira, novembro 26, 2008

O intervalo

Outro dia vi uma dessas frases que circulam na internet que dizia: "Você nasceu sem pedir e vai morrer sem querer. Aproveite o intervalo." Fiquei pensando sobre esse intervalo, mas parei para refletir justamente em um momento em que a vida escolhe para mostrar como fracos somos! A doença. A doença é como um sinal de alerta durante este intervalo, que sacode as pessoas e as colocam em xeque! E agora? Tudo pode estar bem e as preocupações individuais parecem ocupar e direcionar bem todas as ações. Até que... e se tudo acabar agora? E se o tal momento esperado não chegar? E se... se... ????? ...........

São apenas perguntas... agora quero encontrar a calma e a entrega necessária para aproveitar o intervalo.

quinta-feira, novembro 13, 2008

Sobre a existência

Uma pessoa (ou coisa) só existe porque alguém pensa nela. Para cada ser há uma construção diferente, independente de localização geográfica e de temporalidades. Portanto, para cada um que pensa em mim sou uma pessoa diferente! Para alguns não existo mais, para outros sou bem presente, há quem tenha em mim apenas lembranças, para outros sei lá o que sou! E o que sou para mim não interessa a mais ninguém!

E você, vai sempre para mim existir ...

Lillian

domingo, novembro 02, 2008

Não se morre de saudade

Os sinos dobram,
dobro a esquina adiante
O céu me espia mais azul que antes
Os mortos andam como eu nas avenidas
O sangue escorre da mesma ferida

Ergo as mãos pro alto, nos meus dedos os anéis
Flores crescem no asfalto, debaixo dos meus pés

Tudo silencia, ouço só meu coração
A rua acaba e meus sonhos vão
Piso na poça, uma moça estende a mão
Meus olhos brilham, vejo o céu no chão

Ergo as mãos pro alto, nos meus dedos os anéis
Flores crescem no asfalto, debaixo dos meus pés

Deixo o dia para trás
Sono e sonho a noite me traz
Deixo o dia para trás
E a dor...

domingo, setembro 28, 2008

21

Desde do último fevereiro tenho tido dificuldade para escrever e para postar aqui o que vez ou outra escrevo. Ainda nesta linha (a que chamaram de covardia) sinto que não deixei de sentir, mas perdi a vontade de falar do que sinto. Na última noite fiquei com uma certa raiva do meu silêncio depois de um sonho conturbado.
Era dezembro - exatamente na madrugada que encerrava o dia 20. Em um porão escuro eu estava sentada no chão a revirar a angústia da loucura. Tinha medo do sol e do amanhecer do dia seguinte. No escuro do lugar procurava fugir dos feixes de luz que insistiam em iluminar a confortável escuridão e eu repetia em pensamento que aquele era um dia não podia acabar.
Quando o sol finalmente venceu eu gritei - um clamor apavorado. Acordei neste momento e quis escrever. Talvez seja só um protesto contra os pensamentos que dominam. Talvez eu volte mais serena e siga com outros temas. Talvez adormeça.

domingo, julho 20, 2008

Sobre fechar os olhos

Nos meus períodos de silêncio procuro me enganar. Fingir não sentir o que sinto, fingir sentir o que não sinto e intensificar as ilusões. Mas minha farsa tem fim todos os dias quando me fecho em meu quarto, quando me encontro - como agora. E escrevo aqui porque cansei de fingir, mas cansei também de não fingir e me entregar sinceramente à vida. Não há o que me faça querer ceder, querer me jogar, querer viver sem cautelas e sem precauções. Ao contrário. Por isso, diante da vida e do que ela me coloca diante dos olhos, pensei que não vivo de falsas verdades, mas de verdades falsas e isso me parece mais atraente. E assim, vou viver melhor de olhos fechados, construindo um não-lugar que pode ser um ótimo lugar. Não quero mais olhar para o que me faz chorar, para o que me fere a alma... se é covardia, não sei. Vejo como opção, como nos disse Lennon e McCartney:

" Living is easy with eyes closed
Misunderstanding all you see.
It´s getting hard to be someone
But it all works out
It doesn't matter much to me..."

Melhor assim! (L.B.)

terça-feira, maio 13, 2008

O ócio da criatividade

Tenho estado triste.
De uma tristeza improdutiva que me impede de pensar
Bloqueia a criatividade e me cerceia
Meu pensamento não quer pensar
Mergulho no ócio da criatividade
Silencio temporariamente.
(L.B)

segunda-feira, abril 28, 2008

Reflexos sem Reflexões (uma tentativa de escrever contos)

Rodoviária lotada. No guichê a fila formava um W, que ultrapassava os limites das faixas amarelas pintadas no chão – tentativa vã de organizar a impaciência das pessoas. Exatamente no meio da fila estava Lídia. Arrastando uma enorme mala azul, uma bolsa de lona verde transpassada no corpo, jaqueta dependurada no braço, jornais e papéis amassados na mão esquerda. Entediada, pensava no final de semana de trabalho que a aguardava em Brasília. Mesmo impaciente, resolveu aproveitar os intermináveis minutos de espera para pensar sobre os últimos tropeços emocionais que passara.

Há um mês, a desorganizada professora atolava a vida em trabalho. Recorria ao ganha pão como válvula de escape para esquivar-se da vida pessoal que não ia lá essas coisas. Lembrou que adotava a estratégia nos últimos três anos, sem férias. Pensava na sucessão de passos errados, amizades superficiais, intrigas e desentendimentos que vivera no período. 

Tentava, em um difícil exercício mental, pinçar no pensamento os relacionamentos sinceros e as amizades verdadeiras que conseguira construir até ali. Fez um balanço: saldo negativo. Dali a uma semana faria 25 anos. "Um quarto de século e o que eu fiz?" Tudo parecia mesmo sem solução. 

- O senhor não pode embarcar com um bilhete usado! A voz aguda da atendente espetou os pensamentos de Lídia, que foi jogada para fora de seu íntimo direto para um bate boca de rodoviária. À sua frente um senhor que aparentava ter entre 70 e 90 anos insistia em viajar com um papelzinho amassado na mão. Queria entregar o papel e saber o número da poltrona em que sentaria.

-Eu tenho passagem e quero viajar – dizia de cabeça baixa, como se as pessoas só existissem do pescoço até os pés. A voz, também baixa, era interrompida por gritos e um tique nervoso que o obrigava a virar bruscamente a cabeça de dez em dez segundos.
A situação incomodava Lídia, que começou a olhar para trás na tentativa de encontrar em alguém a iniciativa que resolveria tudo.

Atrás uma garota de cabelos vermelhos - devia ter uns 20 anos, calça desbotada e uma mini-blusa verde musgo - parecia ignorar a situação enquanto mastigava um “insuportável” chiclete. Depois, uma senhora gorda e grisalha completava palavras cruzadas sentada em uma mala, enquanto a garotinha que a acompanhava (sete anos talvez), vestida com a fantasia do grupo mexicano adolescente Rebeldes tentava disfarçar enquanto extraia bolinhas de meleca do nariz com o indicador e jogava na garota do chiclete.

- Deviam prender quem compra esse tipo de roupa para criança – murmurou Lídia.

Na frente o senhor ainda insistia em trocar o bilhete e discutia com os atendentes nos breves intervalos da virada de cabeça compulsiva.

- Quanto é a passagem? – perguntou Lídia irritada com a inércia das pessoas.
- O que senhora? – devolveu a funcionária, dona da voz estridente.
-Quanto é para esse senhor viajar? - Insistiu
- 25 reais
- Toma. - Tirou cinco notas de cinco amassadas da bolsa de lona.

Em um gesto automático, a funcionária imprimiu o bilhete e entregou ao senhor, que sem perceber a iniciativa de Lídia, devolveu o velho papel amassado e pegou apressadamente a passagem nova.

- Finalmente a sirigaita entendeu. Não é possível... – seguiu resmungando baixinho.
- Esse homem devia ter passe livre – comentou a, antes inerte, garota do chiclete.
-É, deveria. – rebateu Lídia sem olhar para trás.
Com passos rápidos, a professora seguiu, tentando equilibrar a grande mala, os papéis e a pesada bolsa de lona.

Entrou no ônibus. Da poltrona 20 (exatamente no meio do carro) esticou o pescoço e tentou localizar o senhor da passagem. Não conseguiu. Acomodou a bolsa, o jornal e os papéis no assento ao lado, que estava vazio. Fechou os olhos.

-Aquele senhor nunca saberá que eu o ajudei a viajar. – Começou a pensar sobre a “força do acaso”, que até então só pregara peças na jovem professora. Lembrou dos desarranjos de sua vida emocional. Os desencontros, as decepções...

Desejou estar um dia no lugar do senhor da passagem, beneficiado pela força do tal acaso “que tem a mania de agir de caso pensado”.
O ônibus estremeceu. E o barulho grave do motor abortou os pensamentos e sinalizou o início da viagem.

-Melhor planejar o roteiro das reuniões. Onde eu deixei minha agenda?

domingo, abril 27, 2008

Traição

Pensei que o tempo diminuiria a saudade. Esqueci que os dois são companheiros. Quanto mais o tempo passa, mais arrasta a saudade que aumenta e aumenta. Ela se alonga e ganha espaço em meu coração, já cansado de sentir. Traição do tempo, que sempre tive como meu aliado. (L.B)

terça-feira, abril 22, 2008

Pra você que não é romântica

Deitada em minha cama abri a agenda. De dentro das últimas páginas de janeiro, a flor que era amarela caiu marrom sobre meus seios. Apertei-a junto ao peito e senti o aroma. Descobri que o cheiro ainda estava resistente ali. (L.B)

quarta-feira, abril 16, 2008

Abraços e Ah! braços...

O Houaiss me diz que abraço é o ato de apertar entre os braços - amplexo. Demonstração de afeto ou junção de coisas ou pessoas - aderência, fusão. Para além do dicionário digo que há abraços e só braços entrelaçados - Ah, braços! Como é bom abraçar quando se deseja os braços alheios, quando se quer o peito em que se aperta o corpo. Nestes casos a aderência é certa e a fusão vai além do corpo, toca a alma, produz cheiros e lembranças.

Como é ruim abraçar por abraçar. Apertar braços, braços, braços e braços sem conseguir um Abraço! E por mais que conheçamos vários abraços, alguns serão sempre especiais. Alguns não teremos mais e se transformarão em saudades, lembranças. Alguns desses podemos até sentir com os olhos fechados. Por que um Abraço de verdade provoca sensações para além do corpo que jamais serão esquecidas. O olfato sente, o tato sente, a alma sente. É deste abraço que agora sinto falta. Fecho os olhos para sentir. Toco os meus braços para lembrar.

Abracei outras pessoas e me vi "buscando em outros braços seus abraços", mas me perdi. Não tem jeito... Buscar um abraço em outro só nos faz encontrar o vazio. Cada braço tem um abraço. (Lillian Bento)

quarta-feira, abril 09, 2008

Ainda bem!

Seguia na avenida movimentada e florida a prestar atenção no contraste dos carros apressados com as flores serenas e belas do canteiro central que dividia a via। Perfeita harmonia de cores e formas ignoradas por quem passava. Cena típica de uma tarde quente de segunda-feira. Meus pensamentos oscilavam entre atividades práticas que precisava cumprir rapidamente antes de ir para o jornal e a descrença de que todos aqueles passos não me levariam (tão cedo) para onde quero estar. Desesperança e saudade me sufocavam a alma, enquanto o suor descia pelo corpo.

Senti raiva। Dei um nó nos cabelos.

Em um dos bancos do canteiro central algumas pessoas aguardavam o tempo passar। Três senhoras, de aproximadamente 40 anos, discutiam novelas e liam matérias fúteis de uma revista de fofocas qualquer. Pensei: que horror! Aumentou a raiva. Como esse "jornalismo" de tititi tem tanto espaço no mundo, justo em um mundo com tantas coisas mais importantes para serem discutidas.

Mas em outro banco, um senhor sozinho lia atentamente um livro e a cena seduziu meu olhar। O corpo franzino e as mãos sujas de cal e cimento eram indícios de que saira há pouco do trabalho. Provavelmente um trabalho braçal. Pedreiro, talvez. Mas as mesmas mãos seguravam um livro que trazia na capa o carimbo da Biblioteca Municipal. Diminui o ritmo dos passos. Olhei disfarçadamente o conteúdo do livro. Não consegui ler o título, mas tratava de mitologia grega. Encantada - por gostar muito de mitologia grega -parei.

Ele olhou para mim. Percebeu que eu olhava com curiosidade para o livro। Eu o cumprimentei com um sorriso. Ele retribuiu. Rosto enrugado, com marcas de cal e um sorriso tímido. Nesse movimento consegui ver que lia sobre Apolo, o deus grego da beleza, da juventude e da luz - um jovem alto e bonito considerado patrono das artes. Lembrei-me da figura de Apolo e do livro que li sobre o deus aos 10 anos de idade, quando iniciava a 5ª série. Olhei de novo e percebi o contraste entre aquele homem de meia idade, que trazia no rosto marcas de uma vida sofrida, e o deus grego, símbolo da beleza e virilidade masculinas.

Olhei para as flores do canteiro e voltei a ouvir o zunido dos carros passando. Estava atrasada. Passei apressadamente sem me despedir do senhor. Olhei pra trás. Para o homem com o livro e para a rua com seus carros e flores. E pensei: ainda bem! Passou a raiva. Decidi ler de novo o livro da 5ª série. Ao menos em pensamento confortei minha saudade - minha companheira dos últimos tempos - e desejei não matar minha esperança. Espero rever aquele homem, que por um momento, foi tão bonito quanto às flores do canteiro central. (Lillian Bento)

segunda-feira, março 24, 2008

Intervalos contraditórios

A fase é de muita inspiração e a poesia até pulsa... mas alguma atrofia não identificada me impede de escrever। Para não deixar morrer aí vão versos adequados de Los Hermanos... Adequados e oportunos....

"Eu sei que na verdade eu não consigo entender o nosso amor
Que o teu silêncio fala alto no meu peito
E que nós dois, estamos juntos na distância
Discrepância do destino
Ziguezagueando zonzo de te procurar,
Eu tranco no meu pranto canto alto de euforia
Que eu queria te cantar
Guardo pra mim
Deixa estar ..."



sábado, fevereiro 23, 2008

( )


O teu silêncio me penetra a alma e corta mais que mil palavras furiosas lançadas ao vento...

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Abrir de olhos ...


Parecia uma ameaça ao forte que construí para me guardar das vulnerabilidades... percebi o perigo e fechei os olhos para não ceder... apertava as pálpebras e quanto mais apertava mais me sentia vulnerável ao perigo... não queria entrar no território desconhecido।Mas quando abri os olhos já estava lá... agora são poucas as minhas defesas.Sigo.

sábado, janeiro 19, 2008

...trajetória...

Por perceber e acreditar que somos processos e que a vida toda é e será a busca inatingível de objetivos diversos, aprendi a valorizar a beleza da trajetória. Cada passo, errado ou não, para frente ou para trás, é o que, no futuro, perceberei como o que será a minha história. Outro dia conversava com um amigo sobre frustrações, decepções e inquietações da alma, mas ao terminar o desabafo (fundamental), percebi que aquilo tudo tinha um valor imenso para mim. Disse a ele: Todas as lágrimas que derramei, toda a angústia que administrei, tudo isso valeu e vale a pena.
Vi que chorar por pessoas que se vão, que seguem rumos diferentes dos nossos, aprender a encarar as decepções, me tornava a cada dia mais eu mesma। É como se o cotidiano me ensinasse que a trajetória sou eu। Sozinha. O que é agregado ou perdido ao longo dela, o que fica, fica em mim. O gostar das pessoas, a vontade de ajudar, de estar perto, tudo isso sou eu e não o outro. Percebi que tenho esperado demais das pessoas e que talvez, a saída, seja oferecer mais e nada esperar. Meio auto-ajuda tudo isso. Mas não é. O que quero é ressaltar o valor precioso da trajetória, “das flores que colho, ou deixo...”, como está no título deste blog. As flores colhidas seguem conosco até um determinado ponto, as deixadas ficam ali para colorir o caminho de quem vem depois. Deixei uma flor este ano, colhi outras. E sempre que puder quero voltar para sentir o aroma da rosa deixada e ver o quanto ela pode alegrar outras trajetórias. E a minha segue...




segunda-feira, dezembro 31, 2007

Pioneirismo

Não queria deixar para escrever este texto em dezembro, como um daqueles tradicionais balanços de fim de ano. Na verdade, em abril pensei: vou escrever. Mas como este foi mesmo um ano mais corrido que os outros, em que as 24 horas do dia foram mesmo insuficientes para tantas atividades, o texto ficou para hoje: dia 31 - o limiar. Este foi mesmo um ano de pioneirismo para mim, um 2007 muito importante que marcou transições únicas, principalmente no aspecto profissional.
Em março duas grandes mudanças: o novo trabalho e a aprovação no mestrado. E não foram simples transições. Passei a trabalhar no Jornal Daqui, o primeiro jornal popular de Goiás, da Organização Jaime Câmara. Ingressei na primeira equipe de jornalistas do primeiro jornal do estilo no Estado. Ao mesmo tempo, fui aprovada na primeira turma do mestrado em Comunicação da Universidade Federal de Goiás (UFG). Um ano de pioneirismo, de coisas totalmente novas: para mim, para a cidade, para o Estado e para a pesquisa do País. Conquistas que me alegraram muito e fizeram desse um ano muito especial.
Outros passos prometem novos avanços no ano que começará em algumas horas. E isso me deixa bastante animada, claro que sem promessas - não acredito nelas. (Alguns planos só serão revelados a medida em que forem concretizados). Acredito no que desejo e sigo abrindo esses caminhos. E muitos desafios, como a dissertação que tenho pela frente e a estréia como professora de jornalismo!
Na vida, importante reencontros me deixaram melhor: a amiga da faculdade que retornou ao convívio e mesmo pessoas que não via desde o ensino médio "reapareceram" diante de meus olhos.
Claro que houveram decepções no quesito pessoas: mas disso não quero falar aqui, sigo reestruturando meus sentimentos e relacionamentos sem pressa de acertar. Então, que venha 2008 e que seja bom. Bom para mim, bom para você, bom para minha flor, bom para o mundo.

domingo, novembro 25, 2007

Intervalo

No decorrer dos caminhos as decepções conosco e com as outras pessoas tornam-se tão corriqueiras a ponto de nos acostumarmos a driblar ou lidar com uma ou outra que nos incomoda. Mas, é comum também nos iludirmos e acreditarmos que com uma ou outra pessoa isso não irá ocorrer. É algo parecido com a idéia de morte: apesar da certeza de sua chegada não aceitamos que o hoje será o último dia e seguimos na (um dia falsa) certeza do amanhã. Decepcionei-me com você e te decepcionei também. Deixamos a peça de vidro cair no chão. Um sentimento puro e de alma, que (ainda acredito) livre da efemeridade da matéria sempre nos uniu. Mas, agora trincado e tornou-se aparentemente frágil. Tenho medo de mexer e quebrar de vez, ainda que minha vontade seja ir lá pegar e colar as partes. Deixar tudo no lugar novamente. E ver o mundo do alto do monte sereno das amizades verdadeiras em que sempre estivemos, ainda que com os fortes ventos uivantes. Estou ali a te esperar. (Lillian Bento)

domingo, novembro 11, 2007

Abrindo janelas e portas

Mais vale o meu pranto que esse canto em solidão
Nessa espera o mundo gira em linhas tortas
Abre essa janela, a primavera quer entrar
Pra fazer da nossa voz uma só nota

Só uma parte da letra (Los Hermanos) porque as portas só começaram a se abrir.Espero logo que a escuridão e o frio dêem lugar à luz quente do sol.

quinta-feira, novembro 08, 2007

A sedução dos gênios

Me encanta a genialidade dos poetas, que ao pensarem com o coração revelam inteligência para falar de irracionalidades do mundo dos sentimentos. A seguir uma pura demonstração da genial Clarice Lispector - com toda minha admiração:

Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...

(Clarice Lispector)
(agora leia também de baixo para cima)

quarta-feira, novembro 07, 2007

O Recado

Esse é para você que vem aqui procurar saídas infames, pinçar palavras para enfiar na minha boca. É para você imaginar o que me move e celebrar braços, abraços, palavras, silêncios, distâncias e desejos. E por falar em desejo, ah se seu pudesse controlá-lo: desejaria não desejar-te mais! Mas não posso e nem seria honesto comigo fazê-lo. Então eis os versos perfeitos:

A Alvorada do Amor

Um horror, grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse: Chega-te a mim! entra no meu amor,
E e à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!
Abençôo o teu crime, acolho o teu desgôsto,
Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!
Vê tudo nos repele! a tôda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indignação...
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tufão de fogo o seio da floresta,
Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios;
As estrêlas estão cheias de calefrios;
Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu...
Vamos! que importa Deus?
(...)
Sôbre a tua nudez a cabeleira! Vamos!
Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos;
Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;
Surjam feras a uivar de todos os caminhos;
E, vendo-te a sangrar das urzes através,
Se amaranhem no chão as serpes aos teus pés...
Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto,
Ilumina o degrêdo e perfuma o deserto! (...)

Olavo Bilac (Livro: Bilac Tempo e Poesia publicado em 1965)

domingo, outubro 28, 2007

Inquietação

É tanta inquietação que almejo o sossego.
Invejo a tranqüilidade e os corações serenos.
O meu segue galopando no escuro.
Em batidas aceleradas das angustiantes incertezas.
Desejo a calmaria, mas vivo em tempestades.
E quanto mais desejo serenidade,
mais a angústia sufocante se instala.

Decidi parar de desejar.
Conheci o angustiante desejo de parar de desejar.
Quanto mais desejo não desejar,
mas o desejo teima em chegar
E quando tento silenciar sufoco o meu grito,
que incontido ganha o ar.

Lillian Bento - No limiar entre o silêncio e o grito

terça-feira, outubro 16, 2007

As roupas que não uso mais

Outro dia, um domingo desses, tentei vestir uma saia antiga, das que eu usava na época da faculdade - de retalhos, artesanal e com tecido cru. Completei com uma sandália de couro - também feita à mão e uma bata de tecido. Estava me preparando para trabalhar e, como costumo ir com roupas mais informais aos domingos para o jornal, pensei que esta seria uma vestimenta perfeita. Mas não. Parei diante do espelho e percebi que aquela não era mais eu. Eu me olhava, a imagem se mexia conforme eu me movia, mas não era eu.

Que pena, pensei! Eu gostava de mim daquele jeito. Do que vivi sendo a Lillian de longos cabelos trançados, sandálias de couro e batas artesanais. Mas não dava mais. Me senti meio estranha e não ficaria à vontade como antes. Tirei. Foi melhor. Vesti uma calça jeans, uma blusinha pequena - ao contrário das largas batas de antes - e uma sandália com um leve salto, o que antes seria imposssível. Saí. Agora parecia ser eu.

Só fiquei triste porque as mudanças no visual pareciam refletir transformações na alma. Gostava da menininha de antes, rebelde e sem grandes compromissos. Mas agora parecia não caber mais. Me sinto mulher, adulta, cheia de frustrações e compromissos. Olhei e minhas unhas estavam grandes e pintadas de vermelho. Deixei de resistir. Eu era outra, definitivamente!

Apesar de guardar em minh'alma a garota de antes, não a alimentava mais e nem podia. Ainda deixo ela gritar muitas vezes, dando lugar a um revezamento entre a garotinha e a mulher, ainda em fase de construção. E espero que a menininha não morra e, de vez em quando, vou tentar usar as roupas de antes. Quem sabe um dia deixe de ser estranho. Se for, as guardarei como guardo as doces, picantes, gostosas e saudosas lembranças dos tempos idos.

terça-feira, outubro 02, 2007

Não havia nada lá

A letra é do Moska, mas como sempre, é perfeita para mim...

Quem te levou?
Quem apagou a sua imagem do ar?
O que te fez mudar de vez a casa de lugar?
Eu procurei as flores que plantei
E não havia nada lá

Quando chegou
Até pensei que era pra ficar
E quando se foi
Eu juro que achei que iria voltar
Mas quando abri a caixa descobri:
Não havia nada lá

Não havia mais um dia perfeito
Não havia mais com que se enganar
Ventania no nosso deserto particular
Não havia mais maneira ou jeito
De fazer tudo se modificar
O futuro terminou antes de começar

Mas tudo bem
A gente tem mesmo é que se libertar
De ficar com alguém
Fazendo planos pro dia que ainda vai chegar
Pois me procurei dentro de ti
E não havia nada lá

sexta-feira, setembro 21, 2007

Introspecção

Muita gente tem me dito, desde o último mês, que estou estranha e arredia. E cada um que me fala pensa que é problema pessoal e com ele. Não é. Acho que estou mesmo (estranha). Não posso evitar minhas fases instrospectivas. Elas chegam, invadem, arrombam e se instalam (temporariamente) em mim.
É minha a mania de pensar demais sobre a vida, sua efemeridade e o que tenho feito com ela. Estranho. Sou capaz de esquecer tudo isso (momentaneamente) em festinhas e reuniões regadas a cerveja e rock'n'roll. Mas diante do meu computador, do meu travesseiro, diante do espelho, volto à minha introspecção.
Nessa fase tenho uma vontade de dormir, que não é comum, menos vontade de conversar, o que é mais estranho ainda, e uma série de comportamentos que (eu sei) superficialmente parecem não combinar comigo. Na verdade nem sei porque resolvi escrever isso, talvez para dizer aos que me disseram "você está estranha comigo" que não é bem assim. O Moska entende (hehehehe) abaixo mais uma letra perfeita para o momento. Linda!

Eu vim andando, vagando, vagabundeando
Pelas ruas da cidade
Eu vim chorando, sorrindo, não quero entender
O porque dessa dor que me invade
Certas manhãs ou à tarde
Todas as noites ela vem e me arde
Na madrugada de sol desse quarto de hotel
Nada de beleza nua,
Só a solidão tão crua
De deslizar minhas palavras tão tristes nesse papel
Subo no último andar do edifício mais alto
Sei que preciso voar, mas é difícil dar o salto
Chego até a contemplar a infinita paisagem
Mas meus pensamentos me lembram que é outra viagem
Pois olhando de cima, pensava no chão
(Talvez visitar a tal exposição...)
É... eu já disse à vocês, essa dor sempre me ataca
Pois é... dessa vez aconteceu, por acaso, em Osaka.

(Por Acaso em Osaka. Moska, 1999)

quinta-feira, setembro 13, 2007

Quanta saudade!


Uma foto me fez recordar. Tive saudades do tempo em que minha vida era um livro aberto de fato. Não havia o que esconder, o que ocultar. Agora preciso de cadeado, preciso da omissão. As páginas escritas já não agradam algumas pessoas que amo, então fechei-me. Mas não gosto destas armas. Iniciei um momento minimalista e me esforço para reduzir o que não pode ser lido. Mas não é mais possível ser tão minimalista quanto antes, na época desta foto, por exemplo.Eu (de biquini azul ao centro) com a cabeça repleta de fantasias e esperanças, a maioria já desfeitas. Saudades, nostalgia e tristeza por saber que muito disso ai existe mais. A Chapada dos Guimarães continua lá no Mato Grosso, mas a água desta cachoeira já se foi, as almas dessas pessoas já foram modificadas, as folhas dessas árvores já cairam. E eu transformei-me em um livro com cadeado.






quarta-feira, setembro 05, 2007

Eu

Um barco sem porto,
Sem rumo,
Sem vela,
Cavalo sem sela,
Um bicho solto,
Um cão sem dono,
Um menino,
Um bandido,
Às vezes me preservo noutras suicido.

segunda-feira, setembro 03, 2007

Fora de lugar

Coloquei um vestido romântico para assistir a uma peça teatral com textos do meu querido Fernando Pessoa. Seria uma ocasião especial e minha roupa precisava impulsionar meus sentimentos de Lídia (a de Ricardo Reis). Mas, qual não foi minha surpresa ao perceber que a apresentação havia acabado sem que os atores houvessem recitado - em nenhum momento - os versos em que Ricardo Reis canta a amante Lídia. Saí do teatro frustrada. A Ana Rita, que me acompanhava, não sentiu tesão em momento algum, disse. Mas eu não, eu fiquei no 'quase' o tempo todo. Só não gozei no final. Frustração. Definitivamente, a sensação que tive é de estar fora de lugar.
Mas o melhor e mais deslocado dos acontecimentos estaria por vir.
Saímos do teatro, fomos comer e decidimos ir a um festival de rock alternativo no Martim Cererê. Lá, como sempre, encontrei diversos amigos. Muitas conversas legais, fúteis, inúteis, úteis, engraçadas, nem tanto... Mas de repente vejo um amigo que não costuma figurar neste tipo de cenário com freqüência. O querido Alexandre Bittencourt - o Xandão. Conversamos não sei quanto tempo, horas seguidas. Entre fumaças e goles de cerveja a conversa seguia.
Ao fundo uma banda qualquer - não me lembro e sinceramente não assisti a nenhum dos shows - tocava o punk rock de Ramones. Na nossa frente uma mulher fazia exibições de supensão humana pendurada com dois ganchos pela perna, sangrava e balançava o corpo de cabeça para baixo na mangueira do Martim Cererê. Em volta a fumaça, o cinza, o negro e adolescentes para lá e para cá com cabelos roxos, rosas, azuis...
De repente, o Xandão começa a contar histórias dos bailes de forró que ele costuma freqüentar aos sábados e sobre as tias com falhas no dente que já encontrou por lá. "É lindo ver a simplicidade estampada em um sorriso que mesmo faltando dois dentes expressa a alegria de estar ali no forró depois de um dia de trabalho e dificuldades", contava. Tudo bem. Não via tanta beleza assim, mas ele me lembrava do "sangue povão" que corre nas veias dele. E eu concordo, também gosto da proximidade com esse tipo de simplicidade e havia sinceridade nas situações que ele descrevia, isso era legal. Falamos muito sobre forró e até combinamos de ir um dia dançar, afinal eu também adoro.
De repente a ponderação. "Se alguém aqui ouvir nossa conversa vai reprimir com certeza, a maioria do povo aquie é preconceituosa", disse ele. Voltei os olhos para o cenário. Agora um homem continuava o show de suspensão humana pendurado sem camisa por dois ganchos - semelhantes àqueles de açougue - nas costas. "Tem razão, com tanto discurso de respeito às diferenças a maioria esconde preconceitos mesmo", respondi. Mas é o preço de ser minoria e no caso ali, nós erámos. Como disse a ele, um jornalista, jovem que freqüenta forrós não é tão comum, aliás é (in)comum.
Mas a conversa estava boa. "Quer saber, vamos continuar." E foi como se nós fôssemos verdes em meio a uma multidão de pessoas roxas, ou estivéssemos com roupas de praia no Pólo Norte, ou como se comessémos carne bovina em Uttaranchal, no Norte da Índia. Mas essa foi a viagem. "Vou escrever um texto sobre isso", avisei. "Escreve mesmo". "Quer uma cerveja?". "Quero".

domingo, setembro 02, 2007

Novo de novo... (fragmentos)

Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim
(...)
Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou
E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

quinta-feira, agosto 30, 2007

O mundo não merece...

Sinceramente, o mundo não merece um ser tão estranho quanto eu. Eu mesma olho e não entendo a intensidade de minhas alterações de humor. Hoje estive com um péssimo humor e uma raiva gratuita de detalhes. Esqueci completamente o significado da palavra paciência e segui para minhas tarefas cotidianas. Como posso me irritar tanto com o mínimo?
Passei o dia sem querer cumprimentar as pessoas. Claro que o fazia. Afinal o mundo não compreende e muito menos respeita meu mau humor. Mas não conseguia entender porque todo mundo que me falava 'oi' tinha a iniciativa de inventar um assunto que me obrigava a permanecer mais um pouquinho ali em um pseudo-diálogo. Prestei atenção em pouca coisa hoje, para dizer a verdade quase nada. Estritamente ouvi o que me interessou. Não atendi a maioria das ligações. Simplesmente decidi que não queria diálogos hoje. Nem sempre é possível, algumas pessoas é preciso atender, mas evitei o que pude. Com muita gente que conversei não lembro o assunto, mas sei que tudo me irritava. O jeito de falar, o cheiro das coisas, as manias, tocar em mim enquanto falam - coisa que sempre me irritou, aff...
Parece atitude de 'velha'? Muita gente já me disse isso. Que seja. Liguei o "foda-se" hoje desde a hora que acordei até agora - madrugada - enquanto aqui escrevo. A sorte das pessoas que me cercam é que nesses dias ganham mais com o meu silêncio. Quem não conhece pode estranhar, mas quem consegue "me ler" - como diz um amigo- no mínimo, acostumou-se. Vou dormir...

quinta-feira, agosto 23, 2007

Ser em mutação

Hoje eu não escreveria o texto abaixo...
Ontem queria colo
Hoje quero tato
E amanhã?....

quarta-feira, agosto 22, 2007

As inépcias da mediocridade

No fundo do mar existem aquelas cavernas escuras, tomadas de breu. Por elas nadam pequenos peixinhos que são levados até ali por uma luz brilhante e sedutora. A luz conduz esses medíocres seres que se entregam na esperança de alcançar o gozo prometido. Mas quando estão ali, sem saída, o pequeno ponto brilhante da sedução revela o peixe-monstro que o conduz. Preso, o pequeno tenta reagir, mas está encurralado. Morre. Sou o peixinho (de novo).

terça-feira, agosto 21, 2007

Não gosto do bom senso



Eu não gosto do bom senso
Eu não gosto de bons modos
Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem…

segunda-feira, agosto 20, 2007

Porque a gente é assim?

A pergunta de Cazuza me fez refletir e soltar ao vento inúmeros porquês. Em vão. Nenhum deles parece capaz de preencher o vazio que aperta o peito. E você? Por quê? Por que não passa como um rio? Tantos erros e acertos e você rompeu meu momento de calmaria que sucedeu tantas atribulações. Gritou no meu silêncio. E por quê? Não sei. Talvez nem seja preciso dizer mais nada. O som do vazio ecoa agora um silêncio ensurdecedor. Na minha madura imaturidade não compreendo. Talvez para você e sua esnobe maturidade seja esse o caminho, o do silêncio. Talvez pense que não há mesmo nada a responder, já me disse isso. Fico calada e com o coração cheio de vazio. Vou escrever para "racionalizar a vida", talvez seja melhor que sentir, afinal sempre que tento termino na tentativa de racionalizar a dor. De todos os porquês, apenas uma certeza... o meu querer.

quinta-feira, agosto 16, 2007

12 páginas sem você

Ainda é cedo amor
Mal começastes a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que iras tomar
Preste atenção querida
Embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem amor
Preste atenção que o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó
Preste atenção querida
Em cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares que estás à beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés

Preenchi 24 páginas do meu livro da vida, 12 delas ao seu lado, outras 12 contigo apenas na memória e na alma. Mas nunca consegui guiar a caneta sozinha e muitas páginas foram escritas à revelia de minha vontade, apesar de ter lançado as palavras não pude controlar as frases e parágrafos que elas formaram. Sozinha, mergulhei com sede na vida e consegui cavar o meu abismo e diante dele não sei se recuo ou pulo. Em uma dessas páginas adquiri uma mãozinha para guiar, mas me sinto perdida porque sequer encontrei meu caminho. Pareço perdida diante do labirinto do mundo, que é esse moinho ai. Devia ter prestado atenção na letra do Cartola quando tinha apenas 16 anos. Mas agora, só queria te dar um abraço, pai.

Abismo

Um pouco do grito silencioso da alma, embalado por Cazuza....

-- A luz negra de um destino cruel ilumina um teatro sem cor
Hoje eu to representando o papel do palhaço do amor
Sempre só e a vida vai seguindo assim...

terça-feira, junho 26, 2007

Um segredinho... quase nada

A sensação que tenho ao escrever aqui é a falsa sensação de privacidade, mas agora encontro proteção ainda na canção de Zeca Baleiro. É linda e afinal, de você, sei quase nada mesmo!

De você sei quase nada
Pra onde vai ou porque veio
Nem mesmo sei
Qual é a parte da tua estrada
No meu caminho
Será um atalho
Ou um desvio
Um rio raso
Um passo em falso
Um prato fundo
Pra toda fome
Que há no mundo
Noite alta que revele
Um passeio pela pele
Dia claro madrugada
De nós dois não sei mais nada
De você sei quase nada
Pra onde vai ou porque veio
Nem mesmo sei
Qual é a parte da tua estrada
No meu caminho
Será um atalho
Ou um desvio
Um rio raso
Um passo em falso
Um prato fundo
Pra toda fome
Que há no mundo
Se tudo passa como se explica
O amor que fica nessa parada
Amor que chega sem dar aviso
Não é preciso saber mais nada

domingo, junho 24, 2007

Os melhores dias

Os melhores Dias
Em alguns dias meu corpo atinge o ápice da sensibilidade

Cada extremidade sente mais intensamente os estímulos do mundo
Nesses dias minha alma sente-se contemplada
Meu corpo a entende melhor, a sente quase na totalidade
E compartilha com ela desejos, sonhos, frustrações e prazeres
Gosto desses dias
Meus olhos vêem melhor o mundo e as pessoas
Minha boca sente mais o gosto da vida
Minhas mãos tocam mais lentamente as superfícies aprazíveis
Meus pés parecem conhecer melhor por onde pisam
Minha pele sente mais intensamente as carícias da brisa, do vento, do sol e da lua
E até meus cabelos gozam de uma liberdade diferente
Gosto mais do mundo nesses dias

Lillian Bento
Goiânia, 24 de junho de 2006 - 14h23

segunda-feira, maio 28, 2007

Dos mistérios do humano, ou da Lillian.

Gente parece um ímã estranho. Com algumas pessoas a atração é fatal, com outras ocorre o oposto. Nos últimos dias vivi essa sensação com uma intensidade acentuada. Conheci algumas pessoas, voltei a conviver com outras que não via há tempos, outras me reencontraram sem que eu tivesse vontade, e assim foi. Com duas delas cheguei a me culpar ao pensar o quanto enjôo de alguns hábitos e manias dos outros e quero distância. É estranho admitir isso, mas é assim. Perco a paciência com algumas pessoas, claro que tento ser educada o tempo todo, mas afinidade é afinidade. E tem gente que é melhor que fique longe. E isto é bem difícil porque não dá pra dizer: "ow, dá licença e não me importune mais, simplesmente porque impliquei com sua cara sem motivo!"
Com outras ocorre absolutamente o contrário. Por uma me encantei nos últimos dias, um encantamento de alma, que para mim, é raro de acontecer. Fiquei feliz por isso. A pessoa nem sabe disso, me contento ao pensar que talvez tenha mesmo sentimento bom ao estar comigo. Talvez não. Talvez eu seja para ela, como as duas que me incomodaram e me fizeram perder a paciência. Prefiro pensar que não. Mas ser humano é assim, com alguns a atração é fatal, com outros o contrário!

domingo, maio 20, 2007

O gozo sonhado

Não. Apesar do título o que segue abaixo não são os versos de Fernando Pessoa. Sim, a expressão do prazer esperado e por fim (quase) alcançado. Fui tomada hoje por uma gostosa emoção repleta de frio na barriga, como há muito não sentia. Esta será uma longa semana. O sábado está reservado para um encontro com ele. O homem esperado. O artista admirado. Ele: Paulinho Moska. E como esperei por este momento. A última vez em que estive próxima ao meu artista inspirador foi há cerca de quatro anos. De lá pra cá, a paixão pela obra do poeta tomou conta de meu ser e passei a amá-lo ainda mais, de uma forma diferente, intensa e prazerosa. Ouvir os versos por ele compostos, na voz mais agradável que meus ouvidos conheceram é para mim um momento de êxtase. Tenho prazeres múltiplos ao ouvi-lo e aguardo o sábado, como uma garotinha que espera, nervosa, o primeiro beijo.
Consegui marcar uma entrevista para este blog, que é absolutamente inspirado na ação devastadora de Paulinho Moska (e também Fernando Pessoa) na minha alma. Meu ser, meu existir é permeado pela poesia do Moska e espero ser este o momento do eclipse. Momento ímpar e que jamais será esquecido.
Podem perguntar: mas para quê tanta empolgação. E se não der certo? Sei que corro este risco, mas como não esperar com tamanha felicidade um encontro tão desejado? Minha ansiedade é evidente, meus batimentos cardíacos não me deixam mentir quando penso a respeito. E, de fato, minha paixão poética não me permite usar de moderação sentimental agora.
Marina, estaremos juntas em mais este momento sublime de nossas vidas. Isto me alegra ainda mais. Quantos momentos nossos foram embalados pela melodia do Moska. Nada mais justo e maravilhoso o fato de estarmos juntas no show. Lembra: "O perdão é o que possibilita o nascimento da culpa"? O último dos nossos momentos creitos-moskéticos. (suspiros) Mal posso esperar! (Lillian Bento)


Segue uma música que agora embala meu pensamento.

Da obra do grande Moska:

Assim sem disfarçar
Eu quero te dar
E quero ganhar o que você me der
Eu quero te amar
Até não saber mais o que isso é
Eu quero querer igual a você,
Assim sem disfarçar,
E quero escrever uma canção de amor
Para nos libertar

De todos os códigos, hábitos, truques, manias que insistem em estar
No meio, no centro, no canto da gente em lugares que eu não quero andar

Eu só quero te dar
E quero ganhar o que você me der
Eu quero te amar
Até não saber mais o que isso é
Eu quero querer igual a você
Assim sem disfarçar
E quero escrever uma canção de amor
Para nos libertar

De cada imagem errada que a velha palavra usada nos traz
De tudo que signifique que pra sermos um, temos que ser iguais

terça-feira, maio 08, 2007

Das ilusões

Engraçada a impressão que temos de que um dia a vida vai melhorar. Bobagem. Talvez ela acabe sem termos experimentado sequer uma gota do sonhado bálsamo da felicidade. E que felicidade? Com que pretensão lutamos por ela? Sem saber ao certo o que seja, passamos a vida a perseguí-la. Quiçá a vida toda será apenas a perseguição. Às vezes, quando me pego a fazer planos, chego a pensar que preciso ter paciência porque daqui a um ou dois anos tudo será melhor. Pelo menos seis anos se passaram desde que pensei com seriedade sobre isso. E onde estou? Dei voltas e me vi no mesmo lugar. Andei ao redor do mesmo e me encontrei novamente perdida. Escrevo a 1h35, depois de passar por uma situação que jurei nunca mais presenciar. Volto a jurar que não voltarei. Conseguirei eu? Consiguirá você? Consiguirá o mundo? (Lillian Bento)

"Cansei de dobrar e dar na mesma esquina. Vou cair até pousar lá em cima." (Moska)

terça-feira, março 20, 2007

domingo, março 11, 2007

As belezas de março

Se é resultado do trânsito de Marte no meu mapa astral devido à proximidade do meu aniversário, não sei. Mas entrei nos últimos dias em uma fase pouco habitual em minha vida: a romântica. Nesta linha passei a pensar sobre o amor na minha vida, tema difícil de relatar a não ser por versos. Materializar sentimentos no papel é mesmo a arte dos poetas, que tantas vezes de coração massacrado celebram a dor e derramam novos poemas de amor. Talvez meu estado à flor da pele seja também resultado da beleza que guarda o mês que nasci. Março é um mês lindo demais. Em um 8 de março de 1914, Fernando Pessoa deu vida a seus heterônimos: Alberto Caeeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. De pé por horas seguidas e escreveu mais de trinta poemas, em um êxtase poético que agora me inspira. Março é também data de recordar e suspirar com lembranças doces e apimentadas de minha vida. Ofereço, assim, versos do querido Ricardo Reis, heterônimo preferido por mim. Poeta de inclinação pagã adepto do carpe diem que sabe aproveitar os momentos da vida com equilíbrio e pureza. "Prazer, mas devagar, Lídia."

Quando, Lídia, vier o nosso Outono
Com o Inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
Nem para o Estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa -
O amarelo actual que as folhas vivem
E as torna diferentes.

(
Ricardo Reis, 13/06/1930)

E como não poderia deixar de ser:

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.

Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio
Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis (12/6/1914)

Mas,

As rosas amo dos jardins de Adónis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em nascem,
Esse dia morrem.
A luz para elas é eterna porque
Nascem nascido já o Sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há nite antes e após
O pouco que duramos.

(11/07/1914)


Tem mais a ser dito, mais a ser vivido, mais...

sexta-feira, março 02, 2007

Valei-me Deus! Perdoa por favor, é o fim...
Eu sei que um erro aconteceu, mas não sei o que fez tudo mudar de vez
Onde foi que eu errei?
E o meu jardim da vida ressecou, morreu
Do pé que brotou Maria nem margarida nasceu!

sábado, janeiro 13, 2007

Imprensa que eu gamo

A frase sugestiva do título é o nome do bloco carnavalesco formado por jornalistas: O Imprensa que Eu Gamo! O grupo sempre elogiado por ser dos mais animados do carnaval carioca está precisando de Rainha da Bateria. A notícia é do Blog da Juliana Rangel, do Globo Online e como ADORO sambar estou em fase de análise profunda para lançar minha candidatura! :)

No blog a jornalista conta que a atual rainha de bateria, Mirelle de França, está cansada (sintoma típico da prática jornalística) e que não está disposta a encarar os ensaios. O bloco promove também um concurso para escolher o samba-enredo 2007. Os interessados devem enviar email para: alves.ramiro@gmail.com
É importante lembrar que para as duas categorias os candidatos devem ser jornalistas.

É uma ótima oportunidade para os jornalistas de Goiás soltarem o corpo e a voz na avenida e ficarem menos azedos. É claro que a dica não vale para todos.

terça-feira, janeiro 02, 2007

Bigamia profissional

De acordo com a definição do dicionário Houaiss, bigamia é a "realização de novo casamento sem que se tenha dissolvido o anterior". Neste contexto, vivo agora uma bigamia profissional entre o jornalismo político e o jornalismo popular. Na cobertura do processo político, desde a pré-campanha de 2006 até dezembro passado, me apaixonei pela área que é repleta de sedução e interpretações. Todos os dias ao receber ou descobrir uma pauta me sentia instigada a buscar informações e me comprazia na apuração, nas nuances dos bastidores e na montagem dos quebra-cabeças que algumas reportagens exigiam.

Agora de volta à cobertura de Cidades, em especial da educação de crianças e adolescentes, desfruto cada fase do processo de produção da notícia. Tenho prazer desde a criação das pautas e do surgimento de idéias, que de alguma forma contribuem para a sociedade, até o momento da redação. Me sinto realizada ao penetrar nos diversos ambientes sociais, seja a mais suntuosa mansão ou o casebre mais simples que Goiânia e a região abriga. No último dia do ano, por exemplo, me preparava para o réveillon sem grandes reflexões sobre a vida até chegar no jornal e receber a incumbência de ir verificar como seria a virada de ano para as famílias que perderam grande parte dos bens com a enchente que arrasou uma invasão no Jardim Guanabara II, periferia da Capital.

Enquanto entrevistava aquelas pessoas, que apesar de todos os dissabores agradeciam a Deus por estarem vivas, não parava de lembrar do luxo que compõe a realidade da maioria dos políticos que encontrava cotidianamente no jornalismo político. Há uma ligação forte entre as duas áreas, uma precisa da outra. Mas em um balanço a partir da realidade daquelas famílias do Guanabara, a sociedade contribuiu muito mais com os que ocupam o poder com o voto, que o contrário. A situação, principalmente das crianças, me causou um nó na garganta que durou até a hora da virada, e em menor intensidade, ainda está presente.

Recebi a notícia de que uma senhora faria doações para as famílias atingidas e senti meu coração acalmar. Talvez seja apenas um ato de demagogia involuntária, mas de fato fiquei melhor ao saber que de alguma maneira minha matéria contribuiu. Sei que o caminho não é este, prefiro acreditar na concretização de políticas públicas que dê dignidade maior para a população. Sei também que não é este o papel do jornalista, mas não nego que penso sim sobre a situação.

Mas o fato principal é que minha relação de bigamia entre a política e o social permanece. Confesso que o jornalismo político me atrai como vagalume na noite escura. E de outro lado, o social me oferece um prazer apaziguador. Como no Brasil, mesmo que velada a bigamia é aceita, sigo assim sem pressa de escolher o melhor casamento.

Por Lillian Bento